Precisa imprecisão

Luis de Camões (1524-1580), in “Busque Amor novas artes, novo engenho”:

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal que mata e não se vê;

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Na minha modesta mitologia, Camões inaugura com estes versos o Eu moderno.
Talvez tivesse sido melhor publicar o poema todo, um longo poema de amor onde Camões lamenta a perda da amada, morta prematuramente.
Mas, de súbito, em meio à justa lamentação do apaixonado em face do irremediável, eis que ele se desvia para uma dor ainda mais funda e enigmática; um mal, certamente, mas indefinível.

Que nome dar a isso, afinal? Angústia? Talvez, mas ainda assim me parece pouco. Nome propriamente não há: a coisa se define exatamente por ser inominável – e nisso reside a preciosa precisão do poeta. Mas se insistirmos em chamá-la de angústia, haveria de acrescentar “metafísica”. Angústia metafísica.

Uma angústia sem objeto visível, central e vasta que parece nos acompanhar desde antes da origem ou, ao menos, anterior às palavras e, talvez por isso mesmo, sua fonte essencial: as palavras jorram do inominável cerne – e com elas busco ao menos circunscrevê-lo, delimitá-lo para que não ocupe a alma e o mundo.