O tirano e a vida

Deu no Elio Gaspari:

“Vai ao martelo hoje, na casa de leilões Sotheby’s de Nova York, um manuscrito de Stalin. Está avaliado entre US$ 30 mil e US$ 50 mil. Trata-se de um bilhete de 1930, escrito a lápis, comutando a pena de morte do general Andrei Snesaryev, um matemático que falava 14 idiomas e, nos anos 20, escreveu um livro explicando que a URSS não devia se meter com o Afeganistão.

No mercado americano de autógrafos só existem dois manuscritos de Stalin. Comutando pena de morte, deve ser um dos poucos no mundo. (Snesaryev foi mandado ao Gulag por dez anos e lá morreu.)”

Tirania é isso: num pedaço de papel, manuscrito a lápis, o destino de um homem. Ou, em se tratando de Stalin e seus Gulags, o adiamento de sua morte por dez anos.

Lápis, pedaço de papel: tudo indica pressa e desdém.

Li em algum lugar, que Béria, chefe da polícia política de Stalin, estabelecia cotas de presos e executados aos comissários responsáveis pela Revolução em cada província. Alguns, para mostrar serviço, excediam os números. Nos relatórios, as mortes eram indicadas com precisam mercantil: 14.512 executados, 24.151 presos – por exemplo.