Apostas metafísicas

– Você já começou 2007?

Mônica me pergunta de repente, num e-mail. Estamos trabalhando juntos em mais uma edição do newsletter de nosso centro de meditação. Organizada, eficiente e gentil, Mônica é a editora. Eu faço o copidesque das traduções. O copidesque, do inglês “copy desk”, é a revisão semântica do texto. No caso de uma tradução, tenta-se alcançar o máximo de clareza e fluidez sem sacrificar o sentido literal do texto. Para quem gosta de palavras, é um trabalho delicioso, quase um jogo.

Mas, como ia dizendo, a pergunta de Mônica me surpreendeu e ainda mais seu desdobramento. Ela passou o Ano Novo servindo em um curso de dez dias de meditação e por isso “nem tive tempo de pensar 2007 ainda”. E, logo em seguida, especula: “Talvez isso seja bom. Fica como se fosse um contínuo sem fim ou início.”

De cara, concordei com ela. A vida de cada um é mesmo um contínuo, que nada tem a ver com as marcações do calendário, pensei, taxativo. Mas logo me dei conta que não é bem assim. Aliás, é exatamente o contrário!

O calendário pode ser tudo, menos arbitrário: o ano, com suas estações fiéis e precisas, é tão natural como os dias e as noites. Na verdade, o relógio e o calendário fazem belíssima e rigorosa simetria com o mundo.

Por outro lado, o fio da vida não se interrompe simplesmente a cada ano, como se recomeçasse do zero. Claro que não. Mas é inegável também que cada ano é como um ciclo e, se dezembro convida a um balanço, janeiro é tempo de projetos – seja de começo, de fim, ou de simples continuidade.

Fui divagando enquanto escrevia para Mônica uma resposta entusiasmada e um tanto obscura porque feita no improviso da sucessão de idéias nunca antes pensadas. Fui vendo que a vida oscila entre esses dois tempos: um íntimo, contínuo, ainda que sujeito a seus altos e baixos. E outro, comum, mundano, marcado por ciclos e cortes.

O tempo íntimo, que parece correr por uma estrada sem fim e sem volta, é nossa alma, a marca de Deus em nós. O tempo mundano é o tempo do corpo, finito e perecível.

Somos corpo, somos alma. E, por mais dolorosa que essa dupla identidade possa ser às vezes, não há nisso contradição. A finitude é o preço que pagamos pela singularidade. Só Deus é singular e infinito. Ensinar a alma infinita a ser singular é a missão do corpo. O corpo ensina a alma a ser Deus. Ou devia. Que às vezes – ou quase sempre! – pareçamos tão distantes disso é o que nos faz pensar em encarnações sucessivas ou no mais grosseiro materialismo, em que tudo se encerra com a morte.

Para Pascal, tal dilema se reduzia a uma aposta cega. Descartes, seu contemporâneo, acreditou ter demonstrado a imortalidade da alma. Fé, ceticismo e meditação são caminhos. Ou talvez até, estações do caminho. A verdade, no entanto, é inesgotável: quanto mais apuramos nossa atenção, mais fundo penetramos nela.