Novelas ou versos

“Eu, que outrora quisera ser tantos,
vejo agora que só poderia ser eu.
Sim, eu sou eu, minuciosamente.
Desde o início, eu.
Em cada hesitação, em cada vileza, em cada valentia, eu.
Em cada raro gesto de grandeza
Ou em cada gesto tão comum de mesquinharia, eu.
Em cada vacilante não e em cada enviesado sim, eu.
Eu: único, universal, ínfimo.
Eu: mera duração cujo sentido ainda me ultrapassa o entendimento:
Por que simplesmente não me esqueço
E amanheço outro?
Por que não desapareço?
Por quê? E, sobretudo, para quê?
Há muito mais mistério em que eu persista,
Insistência essencial que parece ignorar o tempo.”

* * *

Lá fora, centenas de outras janelas pulsam iguais, ao ritmo das cenas da novela das nove, enquanto aqui, à meia-luz do monitor, eu, sempre eu, esboço estes versos e me pergunto onde haverá mais ilusão: em novelas ou versos?

A intuição me diz – ou será a vaidade? – que há nos versos mais clareza e que é mais nobre quem se embrenha na solidão de lê-los e fazê-los. Mas, sim, concordaríamos todos – amantes de versos ou novelas, não importa – que a sabedoria está no gesto e não na voz; que o tamanho do pecado se mede pela distância que separa o que se diz e o que se faz.

Então, se é assim, mais perto do mal estará quem se aproxima da luz do que aquele que se deixa acostumar com as sombras.

Versos ou novelas: se algum lugar há para se chegar – e sempre haverá para quem busca – o caminho passa pelo coração mais do que pela mente. Porque a compaixão indica que bem e mal se entrelaçam sempre: aquele que nos rouba, só nos enriquece. Tampouco haverá descanso ou consolo: a morte não existe.