Conversa íntima

Se você conseguisse ver o vento presumido no movimento circular das gaivotas, no desenho das nuvens, no farfalhar das árvores; se você conseguisse juntar todos esses dados dispersos numa espécie de visão mais sutil que desse densidade ao invisível sem lhe roubar a transparência.

Mas não… A imaginação talvez seja um olho, um olho que você desaprendeu a usar e que hoje gasta em fabulações e devaneios, quando na verdade a imaginação deveria ser como um sexto sentido capaz de enriquecer a percepção que você tem do presente.

Mas não… Você desperdiça a imaginação entre ressentimentos passados e futuras vinganças e deixa apodrecer o que de fato você tem: o corpo, esse outro nome do presente. Um cego, sim, um cego sabe usar melhor a imaginação do que você.

Entende agora porque digo que a maior pobreza está em você e em você apenas? Você se apega a todas essas ilusões – nome, pátria, família, espelho – e aos poucos vai perdendo a intimidade com o corpo que é você.

Nada existe de mais perfeito. E, no entanto… Chega a ser triste. Você diz ser dono de tanta coisa – seu carro, seu celular, sua casa, seu relógio, suas roupas – mas seu corpo a quem pertence? Onde fica a hipófise, você sabe? Sabe sequer que ela existe? Eu bem poderia estar simplesmente inventando um nome para testar sua ignorância de si mesmo.

Ah! Tudo que você sabe de si é que agora tem fome. Você tem certeza que tem fome e precisa comer. Comer. Quando você era bem menino comer era a última coisa que importava. Comer e tomar banho. Mas era preciso crescer, eles diziam, os adultos. Então você começou a gostar de comer para ser adulto também. De comer e tomar banho.

Hoje toda sua vida gira em torno da sua fome. Insaciável. E o banho é o seu único momento de intimidade.

Isso é ser adulto: ter fome e tomar banho. Ah, sim! Ter um medo calculado da dor também é coisa de gente séria. Ela confere dignidade e grandeza àqueles que são capazes de suportá-la com o alarde próprio dos atores do cinema mudo. A pantomima da dor. É ela que concede a você licença para esse outro vício de adultos sem corpo: a opinião. E que terá tanto mais valor quando menos esperançada.

Se você conseguisse ver o vento… Mas não, você está lendo agora algum desses gigolôs do apocalipse que pululam nos jornais. Você está tão compenetrado, movendo levemente os lábios como se rezasse. E cada minuto que passa é uma dose a mais de dúvida e ressentimento que se acumula no corpo onde definha sua alma.