Empulhação estética com dinheiro público

É exemplar e revoltante a matéria do segundo caderno de O Globo, 21/02, assinada por Rodrigo Fonseca, sobre o último filme de Ruy Guerra. Último apenas no sentido de o mais recente, porque a despeito do seu desempenho de bilheteria, Guerra tem planos de fazer novos e milionários filmes que dão prejuízo – ao Estado, claro, jamais a ele mesmo.

Apesar do inexplicável respeito com o repórter trata Guerra, seria impossível não falar de números. “O veneno da madrugada”, o tal filme, custo 4 milhões de reais e foi assistido por 3.639 ingressos! Ou seja R$ 1.100,00 por pessoa.

O tolerante Rodrigo Fonseca só esquece de perguntar quanto Guerra destinou a si mesmo dessa dinheirama toda. Um repórter bem-educado, como se vê, que evita assuntos desagradáveis.

Como o último sucesso de bilheteria de Guerra aconteceu em 1962, com “Os cafajestes”, é difícil entender como esse senhor ainda consegue dinheiro público para filmar! Claro, se ele topasse colocar dinheiro próprio na realização de suas fantasias, das duas, uma: ou já teria aprendido a fazer cinema ou já teria desistido.

Mas, não é assim. Como informa o reverente Rodrigo Fonseca:

“Guerra ocupa-se agora de três projetos. Há tempos, luta para filmar o livro “Quase memória”, de Carlos Heitor Cony, com José Wilker. No momento, trabalha num roteiro baseado no romance “Notícias do Mirandão”, de Fernando Mollica, sobre um grupo de militantes de esquerda que se instala numa favela, para instaurar uma revolução socialista. Mas, cada vez mais, Guerra pensa em adiantar um velho desejo, filmar “3×4”, a terceira parte da trilogia composta pelos filmes “Os fuzis” e “A queda”, a partir da vida do ex-militar e operário Mário, vivido por Nelson Xavier.”

Os grifos são meus e querem destacar o que acredito ser as pistas que indicam a razão do sucesso de Guerra – a quem evito chamar de cineasta – não nas bilheterias de cinema, mas nos balções do Ministério da Cultura.

Mas seria injusto num post como esse deixar Guerra desacompanhado, como se fosse uma anomalia qualquer, quando, verdade, o Guerra é a regra.

Por exemplo: quem viu o último filme de Cacá Diegues? E o penúltimo? E o antepenúltimo? Enfim, quem já viu algum filme do Cacá Diegues?

OK, você pode até duvidar que eles existam, mas não tem nem idéia de quanto custam.

Ah, sim! Já ia esquecendo. A certa altura, para explicar, Guerra disse ao ingênuo Rodrigo Fonseca: “O que faltou foi investimento de mídia. Se tivesse tido propaganda na TV, chamadas, talvez a carreira dele tivesse sido outra.”

Ou seja, para Guerra o que faltou foi… mais grana!