Fidel, Chavez e o aquecimento global

Matéria publicada em O Globo e estranhamente ignorada em O Globo online:

“O presidente de Cuba, Fidel Castro, endossou as críticas do presidente venezuelano, Hugo Chávez, ao uso do etanol como alternativa aos combustíveis fósseis.

Castro, afastado do poder desde agosto do ano passado, conversou com Chávez, na terça-feira, no programa de rádio do presidente venezuelano.

— A idéia de plantar alimentos para produzir combustível é trágica, é dramática.

Por isso, felicito o presidente Chávez por criticar o etanol como combustível alternativo ao petróleo, principalmente por causa do impacto que isso pode ter sobre o preço dos alimentos — disse Fidel, ao ser indagado por Chávez sobre o que achava do etanol.

A produção do etanol é uma das grandes alternativas apresentadas pelo Brasil para a questão energética e será alvo de acordo de cooperação entre Washington e Brasília. A Venezuela, no entanto, que tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo, tem feito campanhas sistemáticas contra o uso do combustível. Os canais de TV controlados pelo governo exibem programas sobre o tema, afirmando que a produção do etanol pode produzir um grande impacto no preço da cana-de-açúcar e do milho, afetando principalmente as classes mais pobres.

— Agradeço a Fidel por dar sua importante opinião sobre o etanol. É preciso esclarecer o quanto a substituição do petróleo por esse combustível pode ser ruim, principalmente para a população mais pobre — disse Chávez.”

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Como se vê, a tese do aquecimento global, que agora encontrou seu “paladino americano” na figura oportunista de Al Gore, vai dividir espetacularmente as esquerdas.

Hoje os principais opositores dos EUA e da democracia ocidental estão também entre os maiores produtores de petróleo: Rússia, Irã e Venezuela.

O “plano A” americano, tocado por Bush, tinha um viés francamente popular pois se baseava num raciocínio quase simplório: 1) instalar uma democracia no Iraque, estabilizando a situação política na região; 2) regularizar a oferta de petróleo, barateando os preços (o petróleo iraquiano é de altíssima qualidade e de fácil extração); 3) favorecer uma rápida expansão do industrialismo nos países em desenvolvimento para só então passar à etapa de substituição das fontes de energia.

Como já é sabido, o “plano A” não deu certo. Por inúmeras razões, os países desenvolvidos se recusaram a aderir e os países em desenvolvimento, insuflados por uma esquerda burra e/ou mal-intencionada (a matéria acima o demonstra claramente), se colocaram contra o “Império”.

Entrou então no ar o “plano B”. Sob o pretexto falacioso do “aquecimento global”, os EUA agora já admitem cortar o consumo de petróleo em 30% nos próximos dez anos. Alguém aí duvida que consigam? Tudo que os americanos precisam é de uma causa que 1) unifique o país; 2) o reconcile com o restante do mundo e 3) o mantenha na vanguarda tecnológica.

Como o mundo industrial não pode parar, a alternativa primeira é substituir o petróleo por etanol e biodiesel. O custo dessa troca, por ironia, será mais pesado exatamente para aqueles que mais se opuseram à “solução iraquiana”: os mais pobres – pessoas e países.

Porque a primeira consequência e a mais óbvia já começou a se fazer sentir: o preço dos alimentos está subindo vertiginosamente. O milho, de onde os americanos extraem o etanol, já está mais caro tanto nos EUA quanto no México. Resultado: alta no preço das tortillas, no México e crise no mercado aviário americano, porque a troca de soja por milho, fez subir excessivamente o custo da ração.