Utopia de um homem só

Existe uma hora certa para tudo. É simples: a hora certa é sempre agora. Sempre. Guarda bem isso, Antonio, para que não vaciles mais. Ou pior: não te precipites. Pois, se a hora certa é agora, não é preciso ter pressa.

Seja firme e discreto, discretíssimo: “A hora é agora!”, você dirá em silêncio para si mesmo. E então terá começado o que um dia talvez aos outros parecerá um milagre. Nesse dia, não revelarás que os milagres acontecem, sim, mas muito, muito devagar (como já reparara Paulo Mendes Campos). E não será por modéstia que guardarás o segredo, mas por respeito à necessidade de ilusão que todos também carregamos enquanto não nos ocorre aprender que a hora certa é sempre agora e que só por isso não é preciso ter medo, nem pressa.

Aprender não como quem lê ou escreve uma crônica, pausa entre os muitos afazeres de um dia repleto de repetições, mas aprender no corpo, esse outro nome, tão esquecido, que a alma tem.

E se fores chão para essa idéia de que a hora é sempre agora, ela há de vicejar e espalhar raízes por todo teu corpo até se tornar uma árvore repleta de frutos e sombra vasta onde o tempo abolido virá descansar seus sonhos de morto.

Livre finalmente, corpo e alma reconciliados (como dois vizinhos que nunca antes haviam trocado mais do que saudações protocolares), à calma atenta que, presumo, te habitará então chamarás de felicidade.

Somente aqueles que te amam genuinamente perceberão a mudança e comungarão do teu corpo e de tua felicidade. Os outros seguirão crendo, quando muito, que, como todos, envelheces. É verdade, só não percebem o quanto de ironia há nisso…

Eis, enfim, a detalhada descrição da utopia que deve animar teus dias doravante, Antonio. Não há necessidade de mais palavras. Logo esta crônica cairá no esquecimento, como tudo mais. Mas se tu mesmo souberes cumprir o que agora escreves, profeta de si mesmo, já terá sido uma vitória: a hora certa é agora para os que aprendem a suportar a lentidão do milagre.