Sobre relacionamentos

Uma amiga jornalista me pediu para dar um depoimento numa matéria que está fazendo sobre relacionamentos. Antecipando-se a minha aversão a indiscrições, ela avisou que trocaria o nome e o local de origem para garantir meu anonimato.

Topei – para ajudá-la e por curiosidade também.

“Por que você sumiu de um relacionamento?”. Era a pergunta única, seguida de alguns esclarecimentos. “Pode ser de uma ficante ou namorada. O que interessa é explicar o motivo. Por exemplo: “Ela era ruim de cama”,”Ela fumava”, “Ela queria casar”, etc.”

Revi, como um afogado, rapidamente minha vida toda. Não, nunca sumi de um relacionamento. Todos os meus relacionamentos acabaram mesmo, aos poucos, sofridamente, com idas e vindas que anunciavam um fim que não chegava nunca.

Isso não me torna melhor ou pior do que ninguém. Acho igualmente nobre, perverso e fútil tanto aquele que sai para comprar cigarros e não volta mais, quanto quem se agarra desesperadamente a um amor morto, mas ainda morno.

De certo modo, até invejo os que são capazes de sumir, desaparecer no ar sem dar notícias. Digo “de certo modo” porque é a mesma inveja preguiçosa e sonsa que sinto de quem pega onda ou sabe ganhar dinheiro no mercado financeiro: não moverei uma palha para me tornar um igual.

Também nunca houve uma razão assim tão exata ou tão vulgar para que um relacionamento terminasse. Aliás, nenhum relacionamento acaba, mas vai se acabando pela soma de pequenas razões quase invisíveis, que vão se acumulando, acumulando – como a gordura num coração doente. Uma palavra aqui, outra ali; um gesto, uma ausência, um fato… Só de lembrar pode doer.

Por outro lado, quando se trata de “ex-possíveis relacionamentos”, “ficantes” que melhor seriam definidas como “passantes”, recorre-se com facilidade a argumentos simplórios para explicar um afastamento. Impossível elevá-los a condição de causa: são mera justificativa retórica, sem nenhuma densidade que se oferece aos outros.

Porque o não gostar é tão insondável quanto o gostar – só dói menos. Não fosse assim, terreno marcado por diferenças e constrastes inexplicáveis e ininteligíveis, se o amor fosse, enfim, sempre igualmente intenso e fácil, nem sequer existiria. Se desse no mesmo fazer sexo com qualquer pessoa, acabaríamos não fazendo sexo com ninguém. Porque o amor é essa busca do raro, do que está além. Sexo ou amor não os distingo: cada um faz sexo com o amor que tem, não pelo outro, mas dentro de si. Exatamente por isso ele é tão vário.

Então, para resumir: um relacionamento longo acaba em geral pelo ácumulo de incontáveis detalhes pequeníssimos ; e um relacionamento não anda por uma profunda antipatia que jamais se conseguirá explicar de fato.

Penso assim não ter respondido com minuciosa precisão a pergunta de minha amiga.