De palavras e flores

Certas combinações de palavras são capazes de materializar rosas no ar, sugere a Cabala. Mas dizê-las teria agora o mesmo efeito de comprar as rosas no florista: tornar evidente um amor que ainda precisa ser discreto. Melhor então fazê-las de letras escritas no papel, crônica-buquê de palavras-rosas que trescalam mudas o que só o perfume-gesto é capaz de expressar de fato. Porque dizer é sempre tão fácil ou tão difícil, em face do gesto, verdadeiro até se involuntário.

Então, entre a fala e o gesto, a escrita se insinua, síntese desejada e possível, miúda eternidade dócil aos sentidos. E se os sentidos se atiçam, memória e imaginação inebriadas, logo se confundem e se descobrem um, como dois amantes. Que importa passado ou futuro se sempre só tivemos o presente? O tempo incerto dos amantes é o nosso tempo. Haverá outro?

Sim, há esse tempo que descobrimos pouco a pouco, presente que se alastra e nos enche de surpresa: rugas se dissipam, músculos se tornam mais elásticos, gozos se recriam mais intensos.

E de nós mesmos nos libertamos.

De “sim” e “mais” são as pétalas que forrarão nossa cama quando as palavras-flores desta crônica-buquê finalmente se desfizerem em gestos de verdadeira festa.

“Tudo é bom”, “tudo é possível” serão as rosas-frases que restarão intactas para enfeitar nosso descanso.

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Era pra ser a dedicatória em um livro cujo título guardarei segredo. Mas como sempre acontece quando se trata de nós, a coisa tomou um rumo inesperado – modo divertido de aprender a aceitação e a entrega.

Como se trata de nós, “em nenhum lugar se passa tão suavemente da realidade ao sonho”. E no sonho tudo se encaixa melhor quando está fora do lugar. A dedicatória pode ser então as rosas que não estão no vaso.