O sonho dos mortos

Contemplava o entardecer em Copacabana do terraço do palácio que herdara, suspenso no topo do prédio mais alto da avenida em frente à praia. Céu e mar pareciam um único ser imenso feito de uma infinidade de partículas de azul, distintas umas das outras por fugazes nuances de tom.

Não havia nuvens, mas a brisa vinda do leste espalhava uma névoa rala que talvez contribuísse para a sutileza dos matizes, antes que o azul mais escuro do mar tragasse o céu e a noite finalmente se fizesse, abrupta e igual.

Preferia a noite. Tamanha beleza o deixava ainda mais triste. Olhou sua pele, muito branca e fina: as mãos macias quase se confundiam com o mármore do parapeito onde se debruçava. Não tinha par no mundo com nada que tivesse vida, porque tudo gozava de uma mobilidade que ele aprendera a temer.

Sentia-se prisioneiro de um sonho que não era seu. “Como se libertar de um sonho alheio?”, ele se perguntou enquanto avaliava a profundidade do abismo aberto diante dele, de um azul que se adensava mais e mais. Sabia a resposta, tanta vezes elaborada, minuciosamente, noite após noite. “Não há como se acordar de um sonho que não nos pertence.” Mas os que sonhavam esse sonho, ele sabia, jamais despertariam.

Lá embaixo, os faróis dos carros desfiavam o fio de ouro desbotado de seu ir e vir monótono e anônimo. Seria tarde demais para a vida? Sempre lhe pareceu que sim. A solidão o alcançara muito cedo; e com ela, a amargura de não se achar disposto. “Com o tempo acabamos por nos tornar aquilo que mais temíamos ser”, pensou para concluir, cheio de ironia, que os mortos não morrem: sonham. E como dos mortos não se espera que despertem, o sonho deles se confunde com a vida daqueles que aprisionam. “Como escapar do sonho de um morto?”. Quantas vezes rira, em sua secreta insônia, desses tortuosos raciocínios? Quantas vezes ainda riria?

Nada tinha de seu. Era como um pássaro preso numa gaiola tão grande que talvez nem tivesse grades: se único consolo era que, se saltasse, tinha certeza de que não saberia voar. Havia então ao menos uma resposta.

“O jantar está na mesa.” – A governanta anunciou com sua voz metálica carregada de desprezo. Detestava comer àquela hora, pensou, resignado.