A agonia de uma ilusão


“Seríamos obrigados a reconhecer que [o stalinismo] estava enraizado não no atraso do país nem no meio imperialista, mas na incapacidade inata do proletariado de tornar-se uma classe dominante. Além disso, seria necessário estabelecer em retrospecto que (…) a atual União Soviética foi precursora de um sistema novo e universal de exploração.”

As palavras de Trotsky foram tiradas do artigo de Christopher Hitchens sobre ele que aparece no excelente – apesar da tradução às vezes catastrófica! – “Amor, pobreza e guerra”, publicado pela Ediouro e facilmente encontrável em qualquer banca de jornal por inacreditáveis R$ 9,90 para um livro desse tamanho e acabamento.

A expressão “incapacidade inata” atribuída a uma entidade abstrata como a “classe proletária” teve em mim o efeito de um iluminação.
Nunca me dera conta da profunda artificialidade do conceito de classe – e ainda mais em face de sua pretensão grandiosa de desvendar e esclarecer todas as relações humanas.

Cento e cinquenta anos de propaganda maciça e o conceito ainda permanece estranho ao ser humano comum, que sistematicamente se recusa a ver nele o elemento definidor seja da sua individualidade, seja do que há de comum em seus afetos. Porque, de fato, o proletariado não é ninguém.

Por outro lado, é chocante a obstinação de Trotsky “no fim da vida, isolado no México e no declínio de sua saúde”, às vésperas talvez do seu assassinato pelos sicários de Stalin, em se agarra rao conceito, sua incapacidade de admitir a demonstrada “inconsistência do conceito”, para usar uma expressão já quase fora de moda. bastaria olhar na mesma direção, mas com outros olhos.

Com indisfarçável condescendência pelo revolucionário que lhe influenciou a juventude, única alternativa, aliás, à grosseria stalinista para quem pretendesse se manter marxista, Hitchens prefere dizer que “por ser Trotski, ele não poderia aceitar que, caso o socialismo “desaparecesse aos poucos como uma utopia”, não sobraria nada pelo qual valesse a pena lutar.”

É compreensível que àquela altura da vida Trotsky – e ainda mais ele, tão crente na História! – se visse confundido com sua própria história a ponto de a admissão de um erro teórico ou de avaliação ameaçar não só sua existência, mas sua própria identidade.
Não há porque condená-lo; não há porque admirá-lo por isso. Talvez tenha lhe faltado mais clareza do que diginidade e grandeza.

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A ilustração do post é um achado! Trostsky foi o organizador e comandante-em-chefe do Exército Vermelho, responsável pela resistência e consolidação do governo revolucionário de 1917. Sua fama e popularidade na União Soviética rivalizavam as com Lênin – como essa peça de propaganda expressa á perfeição: um Trotsky São Jorge!

Essa mistura de sagrado e profano numa sociedade que se pretendia atéia e materialista, mas lidava com um povo profundamente religioso, é genial. ^Digna de prêmios em qualquer festival. Na Rússia, no entanto, seu autor deve ter sido logo atingido pela ‘institucionalização da inveja” promovida pelo regime sob o pretexto de coibir o individualismo. E certamente, depois, não terá sobrevivido ao rancoroso Stalin e seus puxa-sacos: sou capaz de apostar 10 contra 1 que ele acabou na Sibéria.