Oração do outono

Ah, que Deus me dê a clareza comovente dessas manhãs de outono para aceitar minha vida tal como ela é, foi, será. Aceitar cada ponto, cada vírgula, cada frase perdida no caminho, cada palavra inadequada. Aceitar, enfim, sua minuciosa pontuação, sua sintaxe às vezes estranha, seus erros inevitáveis de gramática.

Sim, aceitá-la como um longo improviso que não admite correção, mas aprimoramento: farei melhor amanhã! Sim, que não me falte esse entusiasmo modesto e franco que floresce da clareza de saber que sempre haverá manhãs assim de céu azul, azul.

Tudo que peço é que essa clareza me alcance e se estabeleça em mim como o sol presumido por detrás das nuvens, quando se espera que o céu se abra, ou no brilho da lua, quando se espera que amanheça.

E que eu aceite a incerteza do mistério de ser simplesmente um homem (que ninguém sabe exatamente o que é) no mundo (que ninguém sabe exatamente o que é). E que essa incerteza não me oprima a ponto de eu perder a fé – a fé que nasce de manhãs assim, de céu sem nuvens, tão límpidas, tão luminosas.

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Atravesso essa manhã com sacolas carregadas de verduras e legumes, seu viço bom expresso em tons de verdes e vermelhos contrastantes que irão compor a salada que faremos – nós, os amigos – na cozinha repleta de surpresas de Cláudia: sais da Cachemira, arroz negro da China, azeites aromatizados, temperos diversos. Logo, sob o pretexto de comer, teceremos nossa tarde com meticuloso afeto feito de pedaços de histórias, risadas e silêncios.

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No caminho, um cheiro de pão me alcança de súbito, universal e cotidiano, onipresente. É possível atravessar meio mundo ou a vida inteira sentindo esse cheiro tão aconchegante, a desafiar calendários e mapas: onde estou e quando?

“Em mim!”, responde em mim a clareza da manhã que avança. E não me faltará nem comida, nem afeto. O que mais posso querer?