Anacronismo ideológico

Acho engraçado que ninguém tenha atentado para um dos aspectos que me parece mais evidente em toda a discussão sobre as cotas raciais no ensino público superior: a caretice da reivindicação.

Caretice é a gíria antiga para anacronismo. E nada mais anacrônico no mundo digital que o culto obsessivo ao diploma – entendido como um pedaço de papel que se obtém em certas instituições depois de tempo e rendimento pré-determinados.

“O meu papel, o meu canudo de papel. O meu papel, o meu canudo de papel”, era o refrão de um dos primeiros sucessos do chatíssimo Martinho da Vila, lá pelos idos dos anos 60, canção cuja letra era uma espécie de lamentação irônica que bem poderia servir de tema musical dessa campanha por cotas.

No século 21 digitalizado, o autodidatismo é não só uma possibilidade real como uma meta a ser perseguida. Hoje, qualquer um munido apenas de um computador com acesso à internet – de preferência em banda larga (a largura da banda é hoje muito mais importante do que a velocidade do chip) – já pode estudar praticamente qualquer assunto em profundidade.

Isso significa que, se as forças de oposição ao establishment (literalmente, ao estabelecido) fossem de fato avançadas, vanguardeiras, estariam lutando pelo fim da exigência da frequentação física de determinadas instituições públicas ou privadas para a obtenção de diplomas – ou permissões de trabalho em áreas específicas.

Ao mesmo tempo, estariam lutando por mais créditos para a compra de computadores pessoais por estudantes; por cursos de nível superior virtuais; por provas públicas e gratuitas de avaliação de conhecimento que conferissem diplomação aos que obtivessem rendimento satisfatório.

Mas como essa luta é essencialmente política e segue uma orientação determinada pelos preconceitos ideológicos dos anos 50 e 60, a pauta de reivindicações é, por consequência, anacrônica, careta.