Juventude anacrônica

É engraçado que ninguém tenha atentado para um aspecto que me parece evidente da discussão sobre o ensino público superior no Brasil hoje: a caretice.

Caretice é gíria antiga para anacronismo. E nada mais anacrônico no mundo digital do que a obsessão pelo diploma, que é o fundamento comum de todas as questões levantadas.

Entendo diploma como um pedaço de papel que se obtém em certas instituições depois de um período e rendimento intelectual pré-determinados.

Na definição, o que está em descompasso com o presente são as expressões “certas instituições”, que denota lugar, e “depois de um período”, que denota tempo. Hoje em dia, só a expressão “rendimento intelectual” permanece válida.

Porque no mundo digital, tempo e espaço são do domínio do sujeito: no caso, será ele quem determinará quando, quanto, e onde estudar. Ou seja, cabe ao sujeito escolher se vai estudar em casa, numa biblioteca pública, em hotéis, ou seja, lá onde for. Também será de sua escolha quando estudar, se diariamente ou em dias alternados; e também quantas horas estudará a cada vez.

Só não está sob seu controle aquilo que é de fato do interesse público: a avaliação de sua competência intelectual para uma dada profissão. Isso caberia ao Estado, ou a alguma instituição por ele designada, que o submeteria às provas necessárias. E ponto final. Como ele alcançou aquele conhecimento é uma questão que diz respeito exclusivamente a ele e ninguém mais.

No século 21 digitalizado, o autodidatismo é não só uma possibilidade real como uma meta a ser perseguida. Qualquer um, munido apenas de um computador com acesso à internet em banda larga, já pode estudar quase que qualquer assunto em profundidade suficiente para se tornar um profissional competente.

Isso significa que se o movimento estudantil fosse vanguarda de fato estaria lutando, em primeiro lugar, pelo fim da exigência da frequentação física de determinadas instituições públicas ou privadas para a obtenção de diploma – entendido como permissão de trabalho em áreas específicas. Se não de todos os diplomas, da maior parte deles.

E também por mais créditos para a compra de computadores pessoais por estudantes; por mais cursos virtuais de nível médio e superior; pela universalização da banda larga a preço baixo; por provas públicas e gratuitas de avaliação de conhecimento que conferissem diplomação aos que obtivessem rendimento satisfatório sem outras exigências.

Mas como o movimento estudantil segue uma orientação determinada pelos preconceitos ideológicos dos anos 50 e 60, a pauta de reivindicações é, por conseqüência, anacrônica, careta e partidária.

Em vez, por exemplo, da constrangedora barganha de vagas segundo o tom da pele das pessoas, num país cujo maior patrimônio é justamente a mestiçagem, o que os jovens deveriam trazer para o debate é um conjunto de reivindicações e propostas realmente desafiante e inovador. Porque não há nada mais triste do que uma juventude anacrônica, aquém do seu tempo.