O Brasil está louco

Os meninos não deram sorte. A jovem mulata no ponto de ônibus não era uma prostituta, mas uma empregada doméstica. Pior, ela resolveu dar queixa, um motorista de táxi anotou a placa do carro, a polícia foi obrigada a agir e a coisa toda se precipitou. Até uma prostituta de verdade tomou coragem e foi dar queixa também. É muita falta de sorte.

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SÃO PAULO – Um bancário e a mulher foram assassinados na frente do filho de sete anos no Morumbi, zona sul da capital paulista. (…) o casal teria reagido a um assalto. O Honda Fit foi abordado por dois bandidos armados no semáforo (…). Os tiros atingiram as costas e o peito do bancário Glauber Alexandre Shiba Paiva, de 37 anos, e a cabeça de sua esposa, a dona-de-casa Marta Maria Sena de Oliveira, de 30 anos. O filho deles, Gabriel de 7 anos, estava no banco de trás do veículo e não foi atingido. Os dois criminosos fugiram sem levar nada.

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RIO – Um casal de oficiais da Aeronáutica, (…) foi baleado na noite de domingo, supostamente porque não atendeu a uma ordem de policiais do Regimento de Polícia Montada de Campo Grande para parar o carro. A major Larissa morreu, mas seu marido, o tenente Douglas, está fora de perigo. Os PMs estavam fora de sua jurisdição.

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RIO – Terminou com 19 mortos e treze pessoas feridas (…) a megaoperação realizada pela polícia quarta-feira, no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Treze corpos foram recolhidos pela própria polícia, e outros seis foram deixados à noite numa van em frente à 22ª DP (Penha). Entre os feridos, sete pessoas foram vítimas de balas perdidas, além de um policial e cinco traficantes atingidos.

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É, os meninos não deram mesmo sorte. É até capaz que continuem presos. Uma injustiça, claro. Afinal, eles só espancavam mulheres na rua nos fins de semana. Nunca mataram ninguém. E se roubavam, eram só coisas sem importância, tão sem importância como as mulheres que espancavam: celulares vagabundos, grana miúda, bijuterias. Puxa, com tanto senador solto por aí, tanto deputado, ex-ministro, secretário… Até homicida confesso! Que falta de sorte!

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BRASÍLIA – Dizendo-se constrangido e em meio a várias menções a Deus, o senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), acusado de negociar a divisão R$ 2,2 milhões com o ex-presidente do Banco de Brasília Tarcísio Franklin de Moura, subiu à tribuna do Senado na tarde de quinta-feira e negou acordos com dinheiro público na gravação feita pela Polícia Civil do Distrito Federal.

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O país enlouqueceu. A matança é generalizada e a impunidade garantida. Cidadão, polícia, bandido, político, rico, pobre, homem, mulher, criança, idoso – tanto faz: qualquer um pode matar ou morrer. Todos são vítimas e algozes potenciais. Sob ameaça de morte, rouba-se qualquer coisa – celular velho, bicicleta usada, óculos de camelô, tênis falsificado.
O Brasil está louco. Tornou-se uma imensa colônia de psicopatas, catatônicos e idiotas delirantes. É, decididamente, os meninos não deram mesmo sorte.

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