Das origens da loucura brasileira

A propósito da crônica da semana “O Brasil está louco”, a Raquel me mandou um longo comentário por e-mail que ela me permitiu publicar, porque eu o achei muito esclarecedor. Ao menos para mim que nunca pensara na artificialidade do conceito de “brasilidade” baseada em “samba, futebol e carnaval”. Os grifos são meus.

“Tantos jovens inteligentes desperdiçando-se, estudando pra concurso. O pior é saber que o sonho deles é “não fazer nada” depois. De fato, ainda temos um “Estado privatizado”, por tantos e tantos interesses… O Estado brasileiro está longe de ser uma ‘arena’ em que os interesses se degladiam da forma o mais limpa possível – que é o que um Estado deve fundamentalmente ser.

Agora, há gente legal lá dentro também. E eu gostaria de dizer que eu trabalho feito uma louca, como muita gente lá. Mas, sem dúvida, o Estado brasileiro é um negócio colossal demais e que faz muito pouco do que precisava. Vai ter de diminuir. Eu mesma estou me preparando pra isso, pra cair fora eventualmente.

Quanto ao ‘enlouquecimento’ do Brasil, eu acho que ele começou pra valer lá no início do século XX. Perdemos o bonde, a chance, tudo, ali. Aquele interregno em que a Inglaterra deixava de ser a nação mais poderosa e os EUA surgiam com força total… Aquele foi o momento ideal, na minha opinião, pro Brasil desabrochar. O país tinha de ter tirado vantagem. Ele tinha quase tudo: capital relativamente fácil e um Estado que não era essa enormidade. Mas não tinha gente preparada em posições importantes, nem na iniciativa privada, nem na pública. Não tinha gente de visão. Isso sempre faltou ao país, com raríssimas exceções, aliás quase sempre execradas.

Pegue o Japão, por exemplo. Até o século XIX, o Japão não tinha uma “iniciativa privada” pujante, era um país sem instrução e mesmo sem cerimônias religiosas regulares. Mas tinha homens como Okubo, homens de visão, que sabiam que só por meio da educação um país vai pra frente. Por causa deles o Japão conseguiu transformar a escola em templo da virtude e da moralidade. Boa parte das aulas nas escolas era dedicada ao estudo da ética, em que se ensinava, basicamente, o valor do trabalho duro, da frugalidade, da perseverança, da disciplina, etc. etc. Claro, os japoneses já valorizavam essas coisas, mas a escola foi um catalisador. E foi só assim, por meio de uma boa escola, que o Estado japonês fabricou sua versão da ética protestante e fez todo o povo engoli-la – e pôde se orgulhar de ter sido o primeiro país fora do Eixo Europa-América do Norte a se industrializar.

Como o Brasil não é um país protestante, tinha de ter feito o mesmo (sim, eu virei uma desenvolvimentista cultural, argh!).

No entanto, não fez. Educação aqui nunca foi levada a sério. Ao invés disso, o que o Estado brasileiro fez? Fomentou o carnaval e as escolas de samba. Ou seja, nenhum governo brasileiro se importou em preparar o país pra nada.

Hoje há um movimento frágil de universalização da educação no país, que começou com o FHC. A princípio, isso é bom. Mas de que educação estamos falando? As escolas e faculdades brasileiras estão uma tristeza, criando um bando de gente preguiçosa e mimada. Professor que reprova aluno tem de se justificar! Tem de ter muito cuidado pra não ‘frustrar’ e ‘traumatizar’ o estudante – que acaba analfabeto funcional, invariavelmente.

Mas além da falta de educação (um cacoete iluminista meu é achar que o problema da humanidade é mais a ignorância do que a maldade em si), acho que nossos maravilhosos valores brasileiros nunca nos ajudaram. Nossa brasilidade é um atraso herdado do Estado Novo. Isso, somado à falta de gente preparada e criativa na iniciativa privada e, claro, à corrupção endêmica no setor público e à falta de autocrítica em geral e ao pendor autoritário.

O problema no Brasil está longe de ser só político. Mas, enfim, é só minha opinião e opinião é coisa de quem sabe pouco.”