Dos ventos

De repente, uma lufada de vento entra rodopiando como um capoeira atrevido, espalhando pela casa o cheiro acre de mar que tanto me delicia.

Vem de leste, petulante arauto do sol que chegasse para anunciar que, ao contrário de todos os prognósticos, não haveria chuvas e a cidade continuaria a viver os dias agradáveis de um veranico que já se estende desde o outono; dias esplendorosos e cálidos, de luz límpida e céu sem nuvens.

Eu me encanto imaginando que por secretíssimas alquimias os caprichos da natureza e da cidade alcançaram inesperado e provisório acordo apenas para que nós cariocas pudéssemos experimentar o gosto do paraíso. Claro, há as manchetes, as íntimas mesquinharias e as preocupações legítimas a nos embotar o corpo e a alma, mas não há também mal que resista a uns poucos minutos de olhos fechados sob o abraço amoroso dessa luz.

Eu mesmo, num desses dias, me flagrando tomado pela pressa, inventei de usar o celular apenas como pretexto para ficar parado num canto de calçada tomando sol sem parecer mais um maluco. Que prazer fechar os olhos e me abandonar ao sol, revisitando lá no mais fundo de mim a liberdade essencial que me permitirá sempre, a qualquer momento e sem nenhum motivo, simplesmente parar! Eu sou livre, radicalmente livre! Não estou preso a nenhum passado e a nenhum futuro – a não ser, claro, aos grilhões imaginários que o medo de ser livre me inventa. Nome, pátria, família, espelho – nem mesmo esta língua que me é tão cara, nem mesmo o amor que é você: nada, ao fim, me prende a nada. Essa liberdade que só se traduz em solidão e silêncio, essa liberdade exuberante e pavorosa, é minha, queira eu ou não.

E há nesse cheiro de mar que me toma a casa o mesmo desafio viril que repousa nas profundezas de cada um. Bruto, sensual, imprevisível cheira o mar a amor e liberdade – abismos onde perder-se é já um ato de nobreza. E a quem tanto ouse, mesmo que erre, Deus há de oferecer, não a flácida complacência humana, mas o genuíno perdão: “Bem-aventurados os que ousam, porque voltarão a Deus”, penso ouvir sussurrar o vento que me espalha folhas pelo chão.