Mestre-sala e porta-bandeira

Dona Hilda tem 86 anos. Caminha devagar, o corpo encurvado, a mente dividida entre suas preocupações e a paisagem familiar. Desde que nasceu, mora no mesmo bairro e talvez se pudesse traçar no mapa da cidade as fronteiras geográficas de sua existência. A leste o Atlântico, a oeste o Cosme Velho; a rua Paissandu, com suas palmeiras centenárias, ao sul, e a rua do Lavradio, na Lapa, ao norte, comporiam o quadrilátero irregular onde lhe transcorreu a vida, essa mistura enigmática de carne, memória e tempo.

Os cabelos muito brancos suscitam em adultos e crianças a delicada atenção que um dia dedicamos às nuvens. A pele, também alvíssima, apesar de enrugada, guarda uma suavidade e maciez tão surpreendentes que chega a causar inveja nas mulheres mais jovens. Mas são os olhos que encantam – vivazes, velozes, atentos – a indicar que por dentro daquele corpo agora frágil, habita uma alma vigorosa.

Dona Hilda é, aliás, um exemplo de obstinada resistência, especialmente às doenças e aos médicos. Sempre que obrigada a freqüentá-los, ouviu a todos com indisfarçável impaciência para depois, em casa, adaptar os receituários ao seu horror aos remédios.

De modo geral, nunca obedeceu senão a si mesma e fez sempre o que quis, ainda que tenha dificuldade em aceitar que os outros sigam seu modelo. Há nisso, claro, alguma intolerância, mas sobretudo prudência: ela se sabe guiada por poderosas intuições que nunca lhe traíram inteiramente, enquanto os outros lhe parecem seguir os impulsos caprichosos do desejo inconstante e fugaz.

Por tudo isso, em relação à humanidade, Dona Hilda cultiva o sentimento oposto ao do personagem machadiano: ama o indivíduo, mas desconfia da espécie. Um exemplo prático: não há pivete que, tendo lhe pedido um trocado, não tenha, em vez disso, ganhado um pão. Dinheiro mesmo, jamais.

Dona Hilda vem de volta da feira onde tem seus feirantes certos. O rebuliço ambiente, seus muitos cheiros e cores, lhe atiçam a alma, o corpo se ilude e Hilda ganha momentaneamente a forma de menina vigorosa com que, acredita, um dia se apresentará a Deus.

Compra os brócolis que adora; o peixe, mais para filho do que para si (como tudo mais na sua vida, aliás); meia dúzia de laranjas; talvez, algum mamão se o achar bonito. Escolhe tudo a dedo, um a um, com meticulosa autoridade, exercendo o prazer da minúcia; reclama do preço, regateia, sorri – diverte-se!

Agora vem pela calçada e de repente um mulato alto e forte lhe chama a atenção: “Senhora! Senhora!” A urgência da voz a assusta, mas o imenso sorriso logo a acalma. “Cuidado! A senhora está com um saco plástico preso nas pernas!” Ela olha e surpreende-se que ainda não houvesse sentido o objeto que ameaça enroscar-se perigosamente em seus tornozelos. “Assim a senhora pode cair…”, alerta o mulato, a voz modulada pelo carinho. Dona Hilda esboça então o movimento de abaixar-se. “Não! Deixe que eu faço isso..”

E já passando das palavras à ação, o mulato dobra-se num gesto elegante de mestre-sala para, num volteio de mão, transforma o saco plástico num lenço com que abre de novo o caminho de sua porta-bandeira quase centenária. Em seguida, o corpo magnífico ergue-se num giro reverente e acolhe como uma benção o obrigado que recebe. A cena se desfaz e os dois seguem seu dia mais felizes.