Crônicas cubanas

Por Anthony Boadle

HAVANA (Reuters) – Um ano depois de ter assumido interinamente o posto de líder de Cuba, Raúl Castro está alimentando as esperanças de que haja reformas na ilha, que amenizem as dificuldades econômicas e a escassez de comida.

Ele se tornou o presidente interino no dia 31 de julho de 2006, quando Fidel Castro foi submetido a uma cirurgia de emergência no sistema digestivo. Foi a primeira vez que Fidel transferiu o poder desde a revolução de 1959.

Nos primeiros meses, a principal preocupação de Raúl Castro foi preservar a estabilidade política. Recentemente, porém, ele tem se voltado a questões do dia-a-dia dos cubanos.

Raúl admitiu na semana passada, em seu primeiro discurso celebrando o Dia da Revolução, que os salários estatais são inadequados e que a agricultura é absurdamente ineficiente.

Ele disse que quer incentivar os investimentos estrangeiros em Cuba, e que são necessárias mudanças estruturais para produzir mais alimentos e reduzir a dependência do país em relação às importações, que são caras.

“As pessoas estão animadas. O discurso mostra que Raúl é quem está no comando. As mudanças estão chegando”, disse uma empregada doméstica de Havana que não quis ser identificada. O marido dela, porém, estava menos otimista. “Ouvimos a mesma história há anos. Com meu salário, só consigo comprar legumes e verduras, nunca carne”, disse, antes de ser silenciado pela mulher, que o advertiu de que ele poderia ser preso.

Um economista que trabalha para o governo disse que reformas profundas na agricultura estão sendo elaboradas, e que também há estudos para mudar as leis que regulam a propriedade.

Os salários médios em Cuba são de apenas 14 dólares por mês, portanto muitos cubanos encaram com alívio o fato de Raúl Castro estar se preocupando com essas questões econômicas.

“Espero que Raúl possa dar um jeito nisso, porque Cuba é um bom país”, afirmou Armando Laferte, 42, apoiado num velho Chevrolet de 1948, ao som de rap. “Não temos como comprar as coisas de que mais precisamos, da pasta de dente à pasta de tomate”, disse ele.

Fidel, que faz 81 anos no mês que vem, não aparece em público desde que se afastou do cargo. Escreveu uma série de artigos no jornal nos últimos meses, mas não deu sinais de pretender voltar ao poder, enquanto a autoridade de Raúl parece crescer dia após dia.

Exatamente um ano depois do afastamento de Fidel, o jornal do Partido Comunista, o Granma, trouxe uma foto de Raúl Castro na primeira página, e o artigo de Fidel Castro, desta vez sobre os Jogos Pan-Americanos do Rio, foi relegado à editoria de esportes.

Até os dissidentes receberam bem o discurso de Raúl Castro, 76, que antes era o ministro da Defesa. “O discurso cria expectativa e esperança, mas temos de ter cuidado. Há gente linha-dura colocando empecilhos no caminho das reformas”, observou o economista dissidente Oscar Espinosa Chepe.

O Globo, 31/07/2007