Dos muitos eus

Não era um gato; era o sol descansando na árvore, aconchegado num galho. Era eu passando de bicicleta? Acho que sim… Interinamente eu – um dos tantos que tenho. Esse vê o sol batendo numa árvore e pensa que é um gato. Quisera ser ele o dia todo hoje. Mas não dá. Há contas a pagar, trabalhos a fazer. Há, enfim, a vida – comum e corriqueira, sem poesia ou metafísica.

“Ora, meu caro Antonio, não há vida sem eu. Logo não é a vida que é chata, mas o eu que você veste para vivê-la. Por que escolher um eu que reclama, preguiçoso, falsamente lírico e profundo, em vez de outro, garimpeiro, bandeirante, capaz de achar em tudo alguma graça?”

Quem fala deve ser algum outro eu, mais ponderado – nem tão aéreo, nem tão azedo…

Acontece, argumenta o azedo, que há a urgência material das paredes pedindo tinta, das cáries que avançam, invisíveis, das contas atrasadas e a pagar; há a vaidade do reconhecimento público que se traduzisse em grana. Há, enfim, uma lista enorme de necessidades e quereres – urgentes, inadiáveis. Mas o que fazer se ultimamente eu só tenho ouvido “não”?

Se ao menos eu me alimentasse de “não”… Seria um prato cheio! Tudo me favorece, a começar pela profissão: cronista. Poderia dizer “escritor”, mas é muito genérico e, ao mesmo tempo, pomposo. Até pretendo escrever romances, novelas e tenho mesmo alguns poucos contos na gaveta, mas de fato agora o que escrevo são crônicas. Logo, sou obrigado a admitir publicamente que sou cronista. Um desastre!

“Crônica não vende.” é o que ouço de todo editor. Você, leitor, que para mim é um mistério, aos editores aparece com clareza algébrica. Você é para eles uma paisagem vista do alto enquanto para mim é como se encarasse um espelho pequeno e baço. Mal nos sabemos, mas uma coisa é certa: você não compra crônicas! E tome “não” a cada vez que ofereço a coletânea do que tenho publicado aqui. E ainda se fossem só os editores a me dizer “não”…

“E se houver algum eu lá dentro dizendo “não” sem que eu saiba?”, me sugere suspicaz (não é uma palavra linda?) meu eu paranóico… Fico com isso na cabeça – há em mim um eu muito influenciável… Afinal, a negação é insinuante e vai impregnando tudo de tal forma que quando acordo já estou sonhando em me mudar para a Nova Zelândia! Problema seria arranjar visto para tantos eus… Certamente ouviria mais um “não”.

Não, não, não… Chega! Lá vou eu vestido de chato fazer chata a vida. E quem souber de um editor que acredite em crônica, me avise.