O homem que comia não

(primeira parte)

Não sabia como nem porque, nem se preocupou muito em descobrir. Milagre ou mutação genética, o fato é que Jair de repente começou a se alimentar de não. Desempregado há quase dois anos, viu sua vida ir pouco a pouco desmoronando. A mulher o trocou por outro, os amigos foram sumindo; foi morar mais longe, vendeu o carro. Sobrou a solidão e a TV. Ia vivendo do jeito que dava, um serviço aqui outro ali, dinheiro emprestado, contas atrasadas. Se virava, mas dizer que aquilo era vida… Ainda assim, não desistia.

Até que, numa segunda-feira, fazendo a ronda dos classificados de emprego, reparou que a cada não que recebia se sentia mais forte. O estômago mesmo parecia se encher. Passou o resto do dia atento e não deu outra: à noite se sentia como se tivesse saído de um banquete.

Na manhã seguinte, acordou com fome e resolveu testar se a coisa funcionava mesmo. Andou uns três ou quatro quarteirões, entrou num botequim desconhecido e foi direto no caixa:
– Quero um média com pão na chapa.
Sentiu que seu entusiasmo despertara a desconfiança do dono do boteco, que talvez o pensasse bêbado.
– E capricha na manteiga! Jair quase gritou, tirando o sujeito do transe. E quando ele já ia se virando para fazer o pedido, Jair soltou a frase mortal:
– Só tem uma coisa… Pode ser fiado?
Toda a desconfiança acumulada naqueles poucos segundos explodiu num “Não!” cheio de raiva. O efeito foi imediato. Em vez de média com pão e manteiga, um Bauru com vitamina! Jair saiu do botequim agradecido e quase almoçado.

O infortúnio já não o incomodava: vivia dele e foi descobrindo que havia muitos sabores e sustâncias de não. Uns eram doces, outros, salgados. Alguns valiam uma refeição completa; outros, não passavam de um tira-gosto. Dependia muito da situação, do caráter da pessoa, da surpresa e indignação que Jair fosse capaz de produzir para ganhar delas um não.

O que logo percebeu foi algo que sempre soubera, sem nunca ter se dado conta: é mais fácil receber não do que sim. Há mesmo quem distribua nãos com prazer. Raro era o não acanhado, cheio de arrependimento e carregado de um genuíno sentimento de compaixão e impotência. As duas ou três vezes que ganhou uns desses sentiu-se comovido como se comungasse, e numa delas chegou mesmo a passar o braço nos ombros do sujeito e dividir com ele o gostinho de hóstia:
– Não, não… Também não é assim… Deixa pra lá.

Mas Jair tinha lá também seus “prazeres maus”, como dizia. Adorava, por exemplo, abordar senhoras e com a sua melhor cara de seriedade e inocência, pedir:
– Tia, me dá um trocado?
Aquele “tia” vindo de um homem feito produzia de volta sabores surpreendentes e imprevisíveis. Uma delícia!

As semanas foram passando e Jair foi refinando seu gosto. Então uma noite, ressonando na cama de barriga cheia teve uma idéia que lhe pareceu brilhante: no dia seguinte iria almoçar não num banco! Imagine que sofisticadíssimos paladares um não de banco não teria! E que fartura de nãos!
Mal conseguiu dormir de tão ansioso. No outro dia, pontualmente às dez, estava na porta da agência de um desses bancos enormes que lucram bilhões a cada ano.

(continua na próxima segunda)