O milagre das tintas

Há dez anos estas paredes não viam tinta. Estão nuas agora, à espera de serem pintadas. Restam apenas as marcas dos móveis e os furos dos parafusos que fixavam as prateleiras. Não há mais livros visíveis, nem quadros, retratos ou qualquer objeto que confira personalidade à casa. Apenas a mesa de trabalho com o essencial flutua na sala quase vazia onde os sons chegam a ecoar em alguns pontos.

Dez anos… Como tanta coisa pode ter acontecido sem que quase nada tenha sequer mudado de lugar? O que é um homem, uma cidade, um país? O que é a vida? Uma forma do tempo? E o tempo o que é?

“E eu o que sou?”, me ocorre perguntar a estas paredes sujas e vazias como se interrogasse na penumbra um vasto espelho, um mapa astrológico ou uma coleção de fotos antigas.

Terei alguma vez no passado me sentido tão jovem, tão profundo, tão inacabado? Terei alguma vez antes me dado conta tão nitidamente de quanto mudei, de quanto ainda sou o mesmo, de quanto ainda falta?

Essas impressões contraditórias resultam das muitas pastas e gavetas abertas e reviradas e das incontáveis anotações, fotos, cartões, cartas, pedaços de papel, bilhetes, objetos, negativos, cadernos, páginas datilografadas, impressas e xerocadas, das inúmeras versões de textos já esquecidos, dos livros e de tudo mais que foi me passando pelas mãos nos últimos dias e cujo destino de vida ou morte era decidido com caprichosa seriedade: “É improvável que algo volte a ser relido, mas se ainda há espaço para guardar, que se elimine só o que é redundante ou sem sentido.”

Porque nem tudo que eu sou me é visível: não vejo minhas vísceras, nem vejo minha alma. Por que então destruir esses pedaços de mim que ficarão guardados no alto dos armários do quarto de serviços sem incomodar nem mesmo a mim? Um dia acabarão, como eu acabarei e como tudo mais acabará. Agora, ainda há espaço para eles na casa e em mim.
Um dia, eu serei a minha casa e tudo que eu sou estará em mim e em mim apenas. Até lá, irei aos poucos me reduzindo até coincidir comigo mesmo.

Agora, observo calmamente estas paredes como se ouvisse o relato de um soldado que voltasse de uma longa campanha, maltratado e coberto de cicatrizes. Breve será de novo como uma criança, cheia de luz e sem memória, renascida de si mesma.

E eu, sem menosprezo pelo passado, eu me sentirei mais próximo de mim na casa nova. A isso chamo também de felicidade.