Notas dispersas entre paredes vazias

Ainda nisso de arrumar a casa. Agora são as madeiras. Lixar para pintar. Gosto dos cheiros: da madeira, dos vernizes, das tintas. Gosto do contraste da aspereza da lixa com a suavidade do pó. Gosto de ver a madeira ir perdendo aquela pátina do tempo até tornar-se de novo lisa e jovem. E nem precisa muito: a lixa pode deslizar com delicadeza para cumprir sua tarefa. Não é preciso força, apenas atenção, cuidado, paciência.

Quando esse espírito nos habita torna-se fácil pensar em outras coisas. A mente devaneia sem perder-se do trabalho que é, em si, muito simples. Quando me canso, paro, lavo as mãos, preparo um café, anoto o que pensei.
São notas brutas que ainda precisarão de muita lixa e verniz para ganhar forma. Mas por hora é o que tenho para dividir. Não é muito, mas dividir é bom e o que ofereço é bruto, mas não é feio. Faça você uma jóia da idéia lapidada. Ou não faça nada, guarde só a pedra. Também enfeita.

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“E então, quando se está sozinho, finalmente percebemos que somos, que sempre fomos, nosso único adversário e que, portanto, para vencê-lo será preciso renunciar a si mesmo.”

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A maior prova de vidência não é ver o futuro, mas o passado. Porque o futuro que aparece hoje não é o mesmo que aparecerá amanhã. O futuro é móvel e se move com o presente, dia a dia, alterando também o passado, ao redimi-lo ou condená-lo. Será assim que o espírito vê o tempo?

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Nenhuma grandeza memorável, nenhuma baixeza indesculpável… Apenas uma vida quase vazia de acontecimentos, mas que descreve no ar um nítido caminho que me traz até aqui. Isso me basta para saber o que sou.

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“(…) Mas está sendo muito bom. Estranhamente bom. Nunca nada foi bom assim. É como se de repente eu me visse do alto. E então 50 anos parecem 30 minutos, ou talvez menos. Ou uma estrada que você vê serpentear a montanha. Eis a minha vida, longa e logo. Ali quase ao alcance da mão. E agora, na solidão do alto, percebo com uma clareza comovente que meu adversário sempre fui eu mesmo. E agradeço a cada desafeto a ingrata tarefa de me substituir quando eu ainda não agüentaria enfrentar-me. E agradeço a cada amigo a simples presença quando a solidão me aniquilaria. Agora, só e diante de mim, me resta dar as costas a esse outro e seguir subindo. Renunciar a um pedaço de mim, talvez exatamente aquele que mais me custou trazer até aqui…”