A conquista da felicidade

Acordei cedo com uma inesperada vontade de tomar café com leite e pão com manteiga. Um gosto tão comum da infância que se tornou raríssimo com o tempo. Talvez tenha sido algum sonho que se desvaneceu com o despertar, mas deixou lá plantado no fundo do espírito esse desejo nostálgico. Talvez seja essa manhã nublada e fria, ainda silenciosa, com cara de cidade pequena. A infância é uma cidade pequena.

Mas ao desejo importa pouco sua gênese. Caprichoso, aceita apenas satisfação imediata e tenta convencer o corpo rotineiro e ainda preguiçoso da urgência de seu apelo: quer pão com manteiga e café com leite agora!

Convence-o pela emoção ao trazer a lembrança da manteiga se derretendo brilhosa no pão quente que depois quase se desmanchava quando mergulhado no café com leite. Éramos ainda pessoas simples, dessas que não vêm mal nenhum em molhar o pão com manteiga no café com leite. Graças a Deus, foram precisos muitos anos até eu descobrir que era feio molhar o pão no café com leite. Não foi certamente a regra mais estúpida que aprendi na vida – afinal, freqüentei duas universidades! – mas o gesto demorou para recuperar sua inocência.

Sim, talvez seja essa a origem do meu desejo súbito de café com leite e pão com manteiga: recuperar a inocência. Impossível preservá-la. Quem tentou, conseguiu apenas tornar-se estúpido. Mas recuperar essa naturalidade no trato com o mundo – que fazia o menino não precisar que ninguém lhe explicasse que os pães com manteiga nascem para mergulhar em cafés com leite – isso é possível, necessário e urgente.

“Que teu sim seja sim e que o teu não seja não. Tudo mais vem do maligno”, eis a fórmula da inocência. Está em Mateus – mas também no coração de cada homem quando nasce. Voltar a esse cerne é a missão de toda vida. Parece tão simples, tão fácil… Quando terá deixado de ser?

Não sei, mas isso em nada altera a urgência da missão: é preciso colocar uma roupa e descer para comprar pão. Pão quentinho – crocante por fora e fofo por dentro, ávido por completar-se com a manteiga que já o aguarda fora da geladeira como uma noiva no altar. O leite e o café na volta serão coisa de minuto.

Heróico e metafísico, visto-me – mais do formal, enclítico; porém possuído de uma alegria genuína. Vou comprar pão!