Crenças e dúvidas

Louis Pauwels é co-autor de “O despertar dos mágicos” e criador da revista Planeta. Jornalista, escritor, polemista, morreu em janeiro de 1997, aos 77 anos. Em 1973, lançou o seu “Ce que je crois”, traduzido para o português como “Crenças e dúvidas”. É o livro mais importante que li desde as Meditações Metafísicas de Descartes, há quase 20 anos. O livro está esgotadíssimo e é quase impossível de se encontrar em sebos.
Tudo que penso e sinto está dito nesse livro. O trecho abaixo é um pequeno, mas eficiente resumo das atualíssimas e oportunas idéias de Pauwels.

“Eis onde estou. É pouco. Será suficiente, para mim. Não me devem o que quer que seja. Tecerei serenidade com minhas incertezas. Pedirei a mercê de sentir alegria. Contudo, continuarei conservando a esperança de encontrar algo melhor. De ter um encontro decisivo. De receber uma iluminação. Que um gênio desperte em mim. (…)

Creio que a grande manha do Diabo é convencer-nos de que estamos sós. E de que nada somos, num universo mudo. Tenho tendência para acreditar que estamos ligados a outras inteligências que não as humanas, na terra, no tempo e no espaço. Creio que a matéria formiga de inteligências, que há órgãos dos sentidos e da consciência, até mesmo nas partículas. Creio que há um Criador de Estrelas e toda uma hierarquia de espíritos no cosmo. Tronos e Dominações, conforme dizia a antiga teologia. Creio que somos apenas uma variedade de semente da Inteligência universal. Creio numa interdependência infinita e que, neste sentido, o homem é um ser de antes do tempo.

Creio que o homem é um dos resultados da criação universal, a forma estável do espírito encarnado na terra. Que o espírito colocado no homem é tudo, tudo pode, é extensível à totalidade do universo. Que a condição humana é um infinito e que somente há mal-entendidos sobre o modo de emprego. Creio que há inteligências celestes que agem, observam, esperam. Acredito que nossa história conhecida é apenas a parte visível de uma história imersa no oceano do tempo em que o espírito tenha estado em comunicação com outros modos de conhecimento e, sem dúvida, com Inteligências exteriores.

Assim, creio em tudo isso e, também, em que a questão religiosa não é: conciliar a revelação e o determinismo ou integrar o marxismo nos Evangelhos, mas sim: fortalecer a idéia da interdependência universal; reconhecer o caráter aberto da história humana; adotar outra atitude para com o Tempo; rever completamente as noções de materialismo e de espiritualismo.

Creio em tudo isso. Mas não tenho qualquer espécie de certeza. Além disso, posso perfeitamente viver sem essas crenças. Posso mantê­-las à distância, como se olha à distância o flamejar do brilhante que se usa no dedo, admirando, mas sabendo que o brilhante não passa de um investimento e que nos separaremos dele, se a sorte mudar. Não é o brilhante que conta; o que conta é eu ter o dom da admiração. Esse dom de admiração é uma faculdade da alma que sobrevive a qualquer crença, que justifica a existência, bem além da posse de uma pedra ou de algumas idéias. Minha alma diz-me: autorização concedida; acredita no que tu desejares dentro do possível; dou-te razão se escolheres, entre tantas incertezas, a crença que for mais bela a teus olhos. Mas tua arte e tua glória não estão nisso. Tua arte e tua glória estão, simplesmente, em viveres.”