Os “especialistas” do Apocalipse e seus porta-vozes

No post “Os ‘especialistas’ do Apocalipse” comentei uma matéria publicada em O Globo online que anunciava “uma pandemia iminente, mas de data incerta” e deixei no próprio O Globo um comentário equivalente.

A autora da matéria, Maria Vitoria Vélez, me respondeu e trocamos alguns e-mails onde começamos na inconsistência dos dados e acabamos no papel social do jornalista.

Reproduzo abaixo, na íntegra, os e-mails trocados por nós.

O documento citado nos e-mails pode ser baixado aqui.

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Caro autor:

Li seus comentários a respeito da matéria assinada por mim no Globo Online. Em primeiro lugar, agradeço pela leitura e quero ressaltar que compreendo sua discordância com o conteúdo. Lembro que não escrevi um artigo e sim uma reportagem, por isso tive que me ater ao que as fontes informaram, segundo as normas do texto jornalístico. Neste sentido, gostaria de fazer alguns esclarecimentos a respeito da “imprecisão” que o senhor destacou ao comentar a matéria em seu blog.

O primeiro parágrafo, que fala sobre o consenso dos cientistas, foi verificado e confirmado junto à Secretaria de Controle Epidemiológico do Ministério da Saúde. O termo usado pelos especialistas é que a pandemia é eminente, mas realmente não se sabe quando vai acontecer, nem qual vírus irá causá-la, mas sabe-se, ainda segundo os cientistas, que deverá ser provocada por um vírus novo, para o qual ainda não temos anticorpos e daí vem o seu perigo. Devido aos riscos que esta pandemia representa (anexei um documento e um link no fim deste e-mail caso queira consultar), os planos de contingência devem se antecipar à sua emergência. O Brasil lançou o seu em 2005. O principal candidato para causar a pandemia é o H5N1, segundo escrevi, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Ligada à ONU, essa organização é responsável por assumir uma posição de liderança em questões relacionadas à saúde mundial.

Embora estas informações tenham sido confirmadas pelo Ministério da Saúde, o plano de contingência foi elaborado segundo as orientações da própria OMS. Por este motivo e pela importância da organização, lastreei o texto com base em suas orientações.
Enfim, espero ter esclarecido suas dúvidas, mas sinta-se à vontade para retornar este e-mail caso queira algum outro esclarecimento.

Cordialmente,

Maria Vitoria Vélez

http://www.who.int/csr/disease/avian_influenza/avian_faqs/en/index.html#present

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Oi, Vitoria:

Em primeiro lugar, uma informação dessa natureza não pode jamais ser atribuída a algo tão vago como um “consenso de cientistas”. Ao contrário, tal notícia precisa ter obrigatoriamente uma fonte muito bem definida e estar apoiada em trabalhos muito bem documentados – públicos e verificáveis.

A Secretaria de Controle Epidemiológico do Ministério da Saúde saberia dizer quem são os cientistas que formam esse consenso? E por que “consenso”? Eles seriam a maioria dos pesquisadores dessa área? Então o númeor deve ser grande…
E em torno de que informação se dá o consenso: da informação de que em algum momento impreciso do futuro uma pandemia pode acontecer? Repare, isso não é sequer uma previsão. Portanto, não tem o menor valor científico. Acredito que exatamente por isso nem nomes aparecem.

Em segundo lugar, algo que não se sabe quando vai acontecer não pode ser considerado iminente.
Da mesma forma, se não se sabe quando, nem qual o vírus que irá causar a pandemia, logo não se sabe rigorosamente nada.
Como é dito no começo do documento, houve, no século 20, três pandemias de influenza, uma em 1918, outra em 1957 e outra em 1968. Desde então já praticamente se passaram 40 anos sem que nenhuma outra pandemia fosse registrada. Portanto, nem sequer uma regularidade se pode apontar aqui.

Dizer que “sabe-se q será provocada por um vírus novo” é um truísmo, pois qq pandemia é provocada por um vírus novo para o qual não há imunidade formada, ou não seria uma pandemia.
Por outro lado, pelo que li no documento que vc me enviou não há, na prática, nada a fazer como ação preventiva – a não ser literalmente uma aposta na estocagem de antivirais que apresentaram resultado satisfatório no combate ao vírus H5N1 que se acredita dará origem ao vírus pandêmico.

Enfim, é tudo de uma inconsistência assustadora.

O mais interessante a pesquisar nesse caso é quanto terá custado tudo isso tanto ao govenro brasileiro quanto à ONU e quem é o responsável nominal – não basta dizer OMS, é preciso que alguém ou um grupo de pessoas responda por isso na OMS e no governo brasileiro.

Por outro lado, experimente perguntar ao Ministério da Saúde qual o percentual de risco que um heterossexual corre de contrair o vírus da Aids ao ter uma relação sexual genital com um heterossexual do sexo oposto que esteja contaminado. Os riscos são os mesmos para homens e mulheres?
Se nos próximos quatro anos vc obtiver alguma resposta, por favor, me informe.

Um grande abraço,

Antonio Caetano

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Oi Antônio:

Lamento não ter respondido suas dúvidas de acordo. Permita-me discordar, mas é difícil citar nomes, porque as avaliações da OMS se baseiam nas pesquisas de centenas de cientistas espalhados pelo mundo. Seria como citar alguém do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), que tem mais de 500 cientistas credenciados, para lastrear uma informação. Além disso, a organização é uma fonte considerada tão respeitada que o próprio Ministério da Saúde se baseia em suas informações. Sugiro que visite o site da organização (www.who.org) para conhecer suas metodologias de pesquisa.

Como diz o documento que te mandei, o consenso sobre a previsão da pandemia se baseia em estimativas feitas por estes cientistas de que este tipo de evento ocorre com uma periodicidade determinada. São estimativas, é claro, mas foram consideradas o suficientemente confiáveis pela Secretaria de Controle Epidemiológico para embasar suas ações.

Um abraço,

Vitoria

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Pois é, Vitória… Centenas de pesquisas e cientistas e nem sequer um nome.

E de que periodicidade vc fala? Das três pandemias do século 20 apontadas no documento que me mandou – uma em 1918, outra em 1957 e outra em 1968? Se vc conseguir enxergar alguma regularidade aí, por favor, me indique. E se é em torno disso que gira o tal consenso de cientistas – o de que qualquer dia desses do futuro incerto uma pandemia provocada por um vírus desconhecido há de pintar por aí – não preciso visitar site nenhum para verificar a inconsistência da método.

Só gostaria que vc me respondesse que relevância cientifica ou jornalística tem a informação de que uma pandemia causada por um vírus desconhecido pode acontecer num futuro incerto? Serve para que ou a quem?

Que a Secretaria de Controle Epidemiológico talvez não me surpreenda. Eu quero se para você, como jornalista, tais informações são de fato consistentes. O que VOCÊ pensa, Vitória?

Um abraço,

Antonio

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Caro Antonio:

Enquanto repórter, não cabe a mim julgar ou emitir opinião acerca das informações que me são transmitidas por autoridades. Poderia fazer isto se o texto fosse um artigo, mas não foi o caso. Quanto à periodicidade, está no texto que te mandei. Sugiro que escreva à OMS sugerindo que refinem seu método de pesquisa.

Um abraço,

Vitoria

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Claro que cabe julgar, filtrar, contestar, esclarecer – esse é o papel do jornalista. Ou vc se torna uma mera porta-voz de autoridades. Por isso não escreverei a OMS, mas sim aos jornais que leio e assino sempre que encontrar matérias inconsistentes ou meros releases de entidades públicas ou privadas.

Um abraço,

Antonio

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Está certíssimo em fazê-lo. A pauta em questão, inclusive, era sobre o manual da fundação Albright sobre a Pandemia de Gripe. Esse era o release. Os dados da OMS e do Ministério – que foram apurados e não mandados por release – só confirmaram as informações do manual. Não me cabe, repito, julgar se os dados são alarmistas, como o senhor julga, uma vez que foram checados e confirmados. Seria arrogante de minha parte fazê-lo, uma vez que não sou médica ou cientista para tal.

O senhor tem todo o direito de criticar e zelar pela qualidade da informação que recebe. Pessoalmente, me dispus a lhe prestar esclarecimentos sobre os pontos que o senhor levantou. Mas perde todo esse direito ao tentar me ofender.

Sendo assim, nossa conversa chega ao fim.

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Não lhe ofendi, apenas reproduzi suas palavras.
A lógica, Vitoria, é um patrimônio de todos e cabe a todos submeter a ela as informações que recebe para verificar sua consistência. Especialmente os jornalistas cujo papel é exatamente esse – e não apenas o de reproduzir acriticamente o palavrório de autoridades e especialistas. A ciência se funda unicamente na consistência dos argumentos se opondo, veja você, aos argumentos de autoridade.

Um abraço,

Antonio