Formigas

Os traços incertos que se moviam nervosos sobre as pedrinhas do calçamento eram formigas, não havia dúvida. Mais difícil era distinguir o que um grupo delas tentava arrastar quase sem sucesso para o formigueiro que só mesmo elas sabiam onde estava na praça imensa. Talvez fosse o corpo desmembrado de algum outro inseto, talvez um pedaço de comida… Artur não conseguia ver. Sentado num banco, a cabeça baixa, o corpo curvado para frente, forçava os olhos para enxergar, mas não conseguia. Sentiu um aperto no coração ao constatar que só os óculos de leitura já não lhe bastavam. Não havia mais como se enganar: precisava também de óculos para longe.

– Você está me ouvindo?
– Estou…
– E não diz nada?

Artur não levantou a cabeça, continuou com os olhos fixos nas formigas. Fazia um tempo que ele se tornara um estorvo na vida de Renata. Ela já o dissera antes e de outros modos. E ele se fingira de surdo. E se fizera turvo e bruto; lacrimoso e dócil. E ela, irresoluta, o aceitara. E assim vinham tentando iludir o tempo, arrastando juntos o fardo que a paixão se tornara.

– O que você quer que eu diga?

Renata não respondeu. Artur continuou olhando as formigas. Mesmo sabendo que seria inútil, colocou os óculos de leitura para tentar focá-las. Com algum esforço e para sua surpresa viu finalmente aquilo que elas carregavam com um empenho ainda quase sem compensação, pois mal tinham saído do lugar desde que começara observá-las. Era o pedaço de uma barata morta, luzente como madeira envernizada. Pode ver também com mais precisão as formigas e sentir no próprio corpo o quase desespero com que se aplicavam na tarefa.

Levantou a cabeça e Renata o encarou. Estava escrito nos olhos dela o que nenhum dos dois ousaria dizer – até quando?

– Preciso ir… Nos falamos depois?

Artur apertou o braço de Renata.

– Eu ligo pra você.

Ele levantou-se e a beijou no rosto, o mais próximo que pode de sua orelha para lhe sentir o perfume e ver os pelos do braço dela se eriçarem sob o calor de sua respiração.