Edward Hopper

Uma exposição de Edward Hopper com quase 100 quadros reunidos é algo imperdível. Pena que esteja acontecendo em Washington, a pelo menos mil e quinhentos dólares de distância do meu bolso. Tivesse eu a grana, não hesitaria. Minha paixão por Hopper é crescente.

Enfatiza-se muito a solidão em Hopper. Mas quase sempre se toma aí solidão como sinônimo de alienação e isolamento e não como introspecção, exatamente o caso dos personagens dos quadros de Hopper. Eles exibem uma vida interior que é a essência da individualidade. Nesse sentido, seus quadros não seriam uma crítica à sociedade americana, como logo em seguida se tenta concluir, mas a exaltação dela. Só não creio que crítica ou exaltação fosse a intenção do autor.

Tal interpretação resulta do historicismo que reduz a introspecção individualizante a uma espécie de “doença social”. Não é. Ao contrário, é a gênese da autoconsciência que, por sua vez, será o fundamento, entre outras coisas, da moral – ou da ética, se preferirem. Numa sociedade onde a ética prevalece, as pessoas não se sentem julgadas pela lei apenas, mas sobretudo por si mesmas. Não é o olho do outro que as acusa – ou sua ausência que as absolve – mas elas próprias em confronto com os padrões de comportamento que adotaram.

Enfim, desprezo qualquer abordagem que tente fazer do artista uma “expressão do seu tempo”. Acredito que a arte está fora do tempo e é a expressão mais radical da individualidade.

O que mais surpreende, não é que o próprio site dedicado à exposição (para acessá-lo basta buscar por “National Gallery” e “Hopper” no Google) tenha adotado essa interpretação capenga. O pior de tudo é que deixe de enfatizar a qualidade principal de Hopper, aquela que o iguala aos maiores mestres da pintura de todos os tempos: a luminosidade de seus quadros.

Quem os conhece apenas pelas reproduções facilmente encontradas em toda parte pode deduzir da intensidade das cores a luz que eles emitem. Mas é quase um esforço conceitual se comparado à experiência de estar frente a frente com os quadros.

Já contei aqui o meu encontro com Hopper. Estava no Museu de Arte Moderna de Nova York, o Moma, numa ala em obras quando vi que de uma sala improvisada saía uma luz amarelada, muito clara e intensa. Ao entrar me deparei com um espaço repleto de quadros de Hopper. A luz que vi saindo da sala era refletida pelos quadros. Impressionante.

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