Da série: “Deu em O Globo, mas você não vai achar em O Globo online”

Moradores de favelas não gostam do tráfico

Segundo pesquisa, eles não denunciam os bandidos porque não confiam na polícia e em outros órgãos públicos

Daniel Engelbrecht

Apesar de não gostarem do convívio forçado com o tráfico de drogas, apontado como arbitrário e brutal, moradores das favelas evitam denunciar os bandidos por não confiarem no poder público. Essa é uma das conclusões de um estudo inédito realizado pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), com moradores de comunidades do Rio. Em debate realizado ontem no Clube de Engenharia, no Centro, foi mencionado que a falta de confiança na polícia e em outros órgãos do estado permite até mesmo que pessoas ligadas ao tráfico participem de cursos oferecidos pela prefeitura.

Intitulada “Rompendo o cerceamento da palavra: a voz dos favelados em busca de reconhecimento”, a pesquisa, que ouviu 150 moradores de 45 favelas, mostra que a grande maioria dessa população sofre com a ditadura imposta pelos bandidos.

“O receio de infringir de alguma forma o domínio dos traficantes provoca alta dose de medo e desconfiança entre os próprios moradores”, diz o estudo.

Tráfico abortou o socialismo que havia nas favelas’
Embora a convivência entre bandidos e moradores seja próxima, havendo em muitos casos até relações de parentesco, a pesquisa conclui que a maioria das pessoas tenta manter distância das quadrilhas, por medo de ser vítima de atitudes arbitrárias e pelo desejo de fazer parte da sociedade formal. Segundo o estudo, o tráfico age de forma intempestiva e brutal. Assim, por mais que os moradores tentem criar que seriam regras de convívio, ao final acabam submetidos ao arbítrio dos bandidos.

A pesquisadora Dulce Pandolfi, do Ibase, aponta como uma das conseqüências o enfraquecimento de associações comunitárias e outras entidades representativas, igualmente vítimas da arbitrariedade dos criminosos.

— Pode-se dizer, de forma geral, que o tráfico desorganizou as favelas — afirma ela.

Animador cultural e integrante da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, Deley de Acari concorda com ela: — O tráfico abortou o socialismo que havia nas favelas. As associações eram instrumento de resistência e luta e hoje perderam espaço para o tráfico.

Essa conclusão, segundo os pesquisadores, rompe, entre outras coisas, com as idéias amplamente difundidas de que o tráfico substitui o Estado nas favelas e de que os moradores são coniventes. A convivência forçada com os bandidos se perpetua sem maior resistência por parte dos moradores de bem, na verdade, pela falta de confiança no poder público.

Moradora de uma grande favela, uma das debatedoras do evento realizado ontem citou como exemplo a participação de pessoas de confiança dos traficantes em cursos de capacitação oferecidos pela prefeitura.

Segundo a debatedora, elas acabam se qualificando e passando, depois, informações para a quadrilha. A prática acontece sem conhecimento dos responsáveis pelos cursos.

Polícia é vista como corrupta e discriminatória
A desconfiança existe em relação a todas as instituições do poder público, sobretudo a polícia, vista como corrupta, ineficiente e discriminatória pelos moradores das favelas.

— A polícia exerce práticas arbitrárias, que não são fruto de nenhum pacto com a sociedade ou de regulamentações legais — comentou Jacqueline Muniz, do Programa de Mestrado em Direito da Universidade Candido Mendes.

No segundo e último dia de debates sobre os resultados da pesquisa, hoje, no Clube de Engenharia, serão abordados os temas “É possível um movimento social na favela?” e “A violência na favela”, a partir de 9h.