Noturno

Não quero dormir. Não quero dormir porque não quero acordar. Espero com toda a convicção que a minha insônia voluntária faça cessar a rotação universal dos astros e instale uma eternidade humana e suportável, sem calendários e relógios, sem sombras e ruídos.

A escuridão escorre pelas paredes e se infiltra entre as frestas, isolando a casa do lento e sinuoso cortejo do tempo que passa lá fora. Sim, quero ficar aqui para sempre. Não quero a morte, mas também não quero outro dia. Não há nenhuma dor ou melancolia nesse desejo de nunca mais dormir para não acordar; de romper com a aceitação da existência e do mundo tal como ele é, sem a mediação de palavras doces, explicações e esperanças. Só hoje, só por mais algumas horas, eu quero uma solidão feita de livros, silêncio e essa luz quente, artificial e inalterável. Que nunca mais amanheça, que nunca mais nada aconteça – e que essa calma não me venha pela morte, mas por alguma espécie de milagre incompreensível que faça parar o tempo.

Há nesta casa, quem sabe, quase mil livros. Livros de todos os gêneros: do romance policial à filosofia, de Camões a Fulcanelli. Se lidos e entendidos de fato eles dariam a qualquer um o conhecimento exato da alma e do mundo.

Todo o conhecimento humano ao alcance de olhos atentos, genuinamente atentos. Ah, como já acreditei nisso! Acreditei que me bastaria a firme adesão ao pensamento de alguém para encontrar a resposta tranqüilizadora que depois me asseguraria um lugar no mundo. E como isso é verdadeiro para muitos! Para quase todos! Por que não para mim, afinal? Por que, para mim, saber foi sempre o meu modo de alargar o abismo? E nem por isso a vida me é mais difícil ou dolorosa. Ao contrário, não fosse esse outro mundo feito de palavras, espelho do visível e do invisível, viver talvez me fosse, aí sim, impossível.

Sim, agora, por algumas horas que talvez durassem para sempre, eu queria ser livro também, queria partilhar fisicamente desse outro tempo, mais lento e duradouro. Na esperança de talvez alinhar minha alma ao vazio que adivinho gravitando ao meu redor como uma lua negra? Seria isso?

Não sei… Sei apenas que não quero dormir porque não quero mais acordar. Há um profundo mistério arraigado em tudo; em cada coisa, minuciosamente. Chamem-no de Deus e ainda assim será pouco – se conseguimos vislumbrá-lo num relance.

* * *

Adormeci. Amanheceu. Mais um dia vem, com sua luz, ocultar o mistério.