A lei suprema

Não importa muito se a gente tem 12 anos, 18, 35 ou 50. A dificuldade em aceitar a vida como ela é nos acompanha desde cedo. De aceitar a si mesmo e os outros, enfim – porque é disso que a vida é feita, da relação consigo mesmo e com o mundo ao redor.

Mas aceitar o que, afinal? Acho paradoxal que, no fundo, o que não aceitamos é a impermanência, que sempre queiramos, e nos cobremos, algo pronto e definitivo, em face da delicada precariedade de tudo. Como se pudéssemos nos erigir em pedra, estatuas vivas, mas insensíveis.

A meditação tenta ensinar a indiferença, não a insensibilidade. Uma indiferença que resulta exatamente da aceitação da impermanência tanto do que é tomado por bom, como pelo que é tomado por mau. Porque, como me disse um amigo uma vez: “Tudo é bom!”. Sim, essa idéia de que mesmo – ou sobretudo – o que contraria nossa vontade imediata traz uma lição de vida que é preciso aceitar e compreender é o ponto de partida para a resposta daquelas perguntas essenciais, primárias, que desde sempre brilham em nossa mente nos momentos mais inusitados: “O que eu sou?”, “O que faço aqui?”.

Nesse sentido, indiferença e insensibilidade têm sentidos opostos. Porque, enquanto indiferença aqui significa “se deixar sentir tudo”, a insensibilidade é exatamente “não sentir”. No entanto, a voz da insensibilidade, da negação por toda vida há de rondar nossa alma. “De onde em mim vem essa voz?” é o que ando pensando… Não sei. Certamente ela é essencial para que em mim se estabeleça o “diálogo interior” que é o fundamento da consciência lógica e moral. Mas em alguns momentos (e não são poucos) esse “interlocutor” se volta contra mim com uma fúria aterradora. Por quê? Essa mesma brutalidade irá se esparramar sobre o mundo e então a vida se converte em fardo. Pra quê?

Enfim, mexendo aqui nos arquivos do lado blog do Café Impresso, achei um post antigo onde falo de improviso sobre a oposição entre kharma (que poderíamos traduzir muito mal por “destino”) e anicca, a palavra em pali que traduz a idéia de impermanência. Gostei do texto e achei que ele poderá ser útil para nós que aos 12, 18, 35 ou 50 anos lidamos com essas angústias. O título do post é “Anicca, a lei suprema”:

“A lei suprema não é o kharma, a infindável teia de causas e efeitos que gera as sucessivas encarnações marcadas por sofrimento e limitação. A lei suprema é anicca, impermanência, o exato oposto do kharma.

O kharma existe e é gerado enquanto não aceitamos a impermanência, a condição finita de todas as coisas mundanas, preço que pagamos pela experiência da singularidade. Só podemos viver a experiência de sermos únicos e singulares enquanto seres finitos. Só Deus, por princípio, pode ser simultaneamente singular e infinito.

Se a genuína aceitação de anicca (impermanência) nos conduzirá a alguma nova condição de vida singular – a construção de uma alma singular, como parece ser a promessa de Cristo – é uma especulação que só nos atrapalhará na dificílima tarefa de aceitar e vivenciar anicca para superar a condição egoísta que nos escraviza ao kharma.

Há nisso um grande koan, aparentemente paradoxal: o kharma existe e não existe. Existe, como ilusão negativa do ego, como sua crença mais fundamental: se isto então aquilo – forma lógica da causalidade estrita. Não existe – ou melhor, se dissolve – quando a lei suprema da impermanência é encarnada definitivamente em uma vida.

Buda e os professores de Vipassana insistem que os alunos abandonem as especulações e se dediquem com empenho e disciplina à pratica da meditação. Essencialmente, estão nos dizendo sempre uma mesma coisa: “Vivam o presente”. Eles insistem que fixemos nossa atenção no presente, no imediatamente dado, na única realidade a que temos acesso que é aquela que se identifica com as sensações do corpo.

De fato, o presente identifica-se com o sensível – do mesmo modo que a memória se identifica com o passado e a imaginação com o futuro, numa redução ideal das faculdades que constituem a consciência. O presente é o corpo, enfim.

Só o corpo e o silêncio nos pertencem genuinamente. Pois até as palavras nos são emprestadas.”