Fábula

— Você devia se ver com os meus olhos.

O que pode um homem, ao ouvir isso, senão comover-se? Era a mais amorosa declaração de amor que jamais ouvira. Teve vontade de pedir que ela repetisse, repetisse, repetisse – como uma música que a gente não cansa de escutar. Mas não disse nada. Fechou os olhos e deixou que a frase ressoasse em sua alma, atento a cada nuance de sentimento que a constituía. Estavam ali todos os elementos do amor: a admiração, a compaixão, a esperança, o gosto pelo maravilhoso e pelo impossível. E ela o dissera num tom de voz que não deixava dúvida: só de ouvi-la, até os pássaros – e sobretudo eles – entenderiam que ela o amava.

Não queria abrir ainda os olhos porque se tornara cativo dessa boca toda feita para beijá-lo. Era fácil sentir aqueles lábios irem se desenhando sobre os seus, suas línguas se entrelaçando, indistintas. Quase sem esforço, deixou que essas sensações tão prazerosas se dissipassem e por um momento se concentrou em se ver com os olhos dela.

Um calor bom inundou seu corpo e se sentiu forte como nunca antes. Era esse então o milagre do amor? Sob os olhos dela, ele se tornava o que por si só jamais seria, transmutado pelo fogo desse amor que o aquecia sem queimar? Sua solidão seria então sua inimiga? Mas qual delas? De súbito, se deu conta de que possuía muitas solidões e dentre elas havia uma que fizera do berço sua tumba, amortalhado em mármores fingidos de cetim. Era preciso ser forte para encarar o rosto de sua solidão mais tenebrosa e derrotá-la. Era preciso se sentir amado.

Por um instante, sentiu medo de abrir os olhos – um sentimento tão antigo, anterior ao próprio tempo, quando não havia ainda palavras. Ela olhava para ele, o rosto bem próximo do seu, pois sentiu o afago inconfundível da respiração dela em sua pele. Apurou os ouvidos e percebeu que ela sorria quando repetiu:

— Você devia se ver com os meus olhos…

Ele sorriu também, sem abrir os olhos. Era bom se sentir amado.