Queridões

A primeira pessoa a me chamar de “queridão” foi o chaveiro da esquina há mais de um ano. De cara, o termo ainda era tão estranho que eu, no meu passo apressado e carregado de compras, entendi “bonitão”. Ora, se nem o Gianechinni deve gostar de ser chamado de “bonitão”, eu menos ainda. Não adianta: por mais bonachona que seja a figura do chaveiro, o termo “bonitão” sempre soará carregado de inveja e ironia. Por isso foi até com certo alívio que da vez seguinte entendi claramente ele me chamar de “queridão”. Achei o máximo! Além da novidade, havia também a oferta desse gostar simples e superficial, sem razão ou pretensão que é muito melhor que a admiração ambígua de um “bonitão” dito entre dentes.

Depois, fui ouvindo o termo se repetir aqui e ali, nas bocas mais díspares e inusitadas, sem ainda me dar conta que se tratava de um modismo. Minha alma de cachorro – ou o lado cachorro da minha alma vasta – recusava-se a perceber o óbvio em troca da confortável ilusão de que “queridão” era eu e ninguém mais!

Só quando o termo reapareceu na boca de uma amiga é que despertei do meu delírio distraído. Acho que uma das qualidades que define o chic é esse poder de descobrir a graça que existe no fugaz. Ou de lhe acrescentar uma elegância que antes não possuía e que o faz durar além da previsão mais benevolente. Dito por minha amiga, “queridão” soava quase como um título de nobreza, criado especialmente para agraciar uma nova categoria de ser.

O aspecto canino da minha alma, jamais disposto a largar o osso da ilusão, deu-se por satisfeito: a sonhada exclusividade se perdera para logo ser recuperada com vantagem pela ilusão mais alta de fazer parte da nobre estirpe dos queridões!

E como essa minha amiga é uma queridíssima queridona logo concluí que é uma prerrogativa dos queridões descobrirem outros queridões para lhes outorgar o título. Não se trata, portanto, de mera gíria, mas do exercício de nobilíssimo direito iniciatório! Assim, muito me anima ver o termo se espalhando por aí como uma praga. Creio caninamente que se trata de uma prova inequívoca de que os homens são melhores do que a imprensa e os acadêmicos tentam nos fazer acreditar em artigos e teses.

Concluí também que sendo eu um cronista queridão, segue-se que meus leitores também o são! Então quero aproveitar o Natal para presentear a todos vocês com o título vitalício (mas não hereditário!) de queridão! Enfim, fica decretado que vocês são todos uns queridões. E Feliz Natal! Obrigado por tudo e voltem sempre!