Presente de Natal

Eu vou pensando no que dar a você de Natal enquanto caminhamos pela rua lado a lado, meu braço sonso brincando de roçar o seu só para sentir me eletrizarem os pelos. Quanto poder temos um sobre o outro – e o duplo sentido da frase só a torna mais exata.

Vamos em silêncio satisfeito, mas uma dor improvisada jaz lá no fundo do meu peito. O que te dar de presente? Lágrimas, versos, gozos – tudo isso eu já dei. O que mais posso dar? Eu finjo não saber, enquanto brinco de roçar meu braço no seu sem que você perceba, assim vestida dessa alegria distraída que lhe cai tão bem.

Tanta coisa eu queria te dar, tanta coisa… Algumas são mesmo impublicáveis: umas porque são quase obscenas, outras de tão ingênuas. Coisas tão práticas como um vestido verde musgo; coisas tão supérfluas quanto uma luneta… Você seria a única mulher que eu conheço a possuir uma luneta! E nenhuma outra fica melhor do que você de verde-musgo…

Algo nos une, algo mais do que essas formiguinhas que saltam invisíveis de você para mim e me percorrem velozes antes de voltar para você, num círculo que nos mantém delicadamente imantados. Somos dois, somos um e nada que venha do mundo pode nos ferir.

Eu sei muito bem o que quero dar a você: meu amor em forma de praça. Meu amor em forma de praia você já tem. Mas ao meu amor já não lhe basta ser uma praia deserta e bruta que a brisa acre do mar amansa à sombra de umas amendoeiras. Meu amor agora quer ser praça! Uma praça imensa, cercada de árvores altas, onde bem no centro exulta um chafariz incessante. Ao fundo, voltada para o nascente, há uma igreja só porque você também fica bonita de branco e não existe nada mais parecido com um chafariz do que uma noiva de véu e grinalda. Do outro lado, há um cinema. Há barraquinhas de flores nessa praça, um pipoqueiro, algodão doce e um anacrônico lambe-lambe para registrar nossos momentos mais felizes.

Sim, quero um amor de onde a gente possa assistir o mundo, anônimos e felizes, depois da praia. Uma praça onde aconchegar para sempre nossos velhos e crianças. Pra sempre, eu disse – e tomei um choque no seu braço…