O idealismo no cinema

O que filmes como Ardil 22, O show de Truman e Matrix, por exemplo, têm em comum? Uma abordagem idealista do mundo. Cada um a seu modo pretende que aquilo que chamamos de realidade (os objetos imediatamente dados) nada mais é do que o manto que recobre – que, ao mesmo tempo, esconde e revela – a verdade ou o que de fato o mundo é, sua essência, aquilo que chamamos de vida.

No idealismo podemos dizer que realidade e vida não mantém uma relação de imediata correlação verdadeira; que não existe uma relação de correspondência entre realidade e vida. A verdade da vida não está imediatamente dada pela realidade sob o ponto de vista do idealista. Na verdade, ela a oculta. É preciso que um agente mental intervenha para dissolver essa pátina ocultadora. Esse agente mental é toda teoria idealista. O idealismo, como se vê, é uma fórmula messiânica.

Essa relação de ocultamento entre realidade e vida pode se explicar ou justificar de muitos modos. Em Matrix, ela é direta. A vida está inteiramente oculta pela realidade e quase nenhuma brecha existe para que se possa passar de uma a outra. Em Ardil 22, foi a realidade que se corrompeu, falseando completamente a vida até conduzi-la ao absurdo. Em O show de Truman, é a reprodução da realidade que irá indiretamente mostrar a desconexão entre ela e a vida em vez de reforçá-la, como era a intenção original do projeto de reprodução.

Os finais de Ardil 22 e O show de Truman são muito parecidos, por exemplo. Em ambos nos é sugerido que os protagonistas conseguem escapar da realidade para ingressar na vida.

Refletindo agora de improviso, eu diria que a tensão entre realidade e vida é permamente, um dado que talvez seja um dos pontos de partida ou de chegada comum a todas as abordagens filosóficas.

No idealismo clássico, digamos assim, não existe uma correspondência entre realidade e vida. Há como uma ruptura ontológica, essencial, entre realidade e vida. Ontológica aqui significa também “irremediável”.

Formas mais atenuadas do vírus idealista deixma entrever brechas na realidade de onde se poderia acessar a vida; brechas obviamente só identificáveis a quem tenha a posse do instrumental filosófico… idealista, claro! Esse o perigo dos idealismos todos: se transformarem em seitas fanáticas e intolerantes. Matrix é o exemplo. No filme, aqueles que estão adaptados à realidade são considerados pelos idealistas como “cadáveres adiados que procriam” cujo assassinato deve ser considerado um ato de misericórdia.

Dito isso, é fácil perceber que todas as derivações do hegelianismo – marxismo, evolucionismo, positivismo, fenomenologia, existencialismo – são expressões desse idealismo.

De um modo mais radical, eu diria que toda a dita “filosofia alemã” está irremediavelmente condenada por esse rejeição à realidade e à vida que involuntariamente resulta da rejeiçao de uma conexão imediata entre elas.

Teologicamente, a rejeição dessa conexão implica em rejeitar a possibilidade de uma conexão direta com Deus? A princípio, eu diria que sim. mas o que dirá Lutero… ?