Vadiação

Aproveitei esses dias de férias à brasileira para fazer uma das coisas que mais gosto: vadiar. Os franceses – ou melhor, os parisienses – diriam flanar. Mas eu acho que o termo que melhor se aplica a nós brasileiros – e especialmente aos cariocas – é mesmo vadiar.

Minha vadiação é simples, se resume a estacionar meu carro na primeira vaga que encontro mais ou menos próxima da praia que quero ir e vestido apenas de sunga, camiseta e chinelos ir caminhando lentamente na direção do mar, naquele passo gingado de carioca metido a malandro. Levo apenas a chave do carro e uns trocados acomodados na sunga. Nada de celular, claro, porque uma das graças da vadiação são os encontros casuais. Quando, mais tarde, em minha mente começar a se desenhar a vontade de um mergulho, dinheiro e chaves serão cuidadosamente embrulhados na camiseta e, junto com os chinelos, serão deixados sob a guarda de alguma família acomodada à sombra de uma barraca.

Vou sem nenhuma pressa e sem saber muito bem pra onde. Há algum tempo, o centro do meu mundo praiano é o Posto Seis, de onde posso alcançar a pé um círculo que se estende de Copacabana, na altura do Posto Cinco, até o Posto Nove em Ipanema, passando pelo Arpoador e a Praia do Diabo. Tudo depende dos caprichosos acordos entre o corpo preguiçoso e a alma arguta. Ou será o contrário: o corpo é que é arguto e a alma preguiçosa? Não sei… Vai ver, depende do dia.

Vou gastando os olhos sem a menor intenção de guardar nada. Deixo que eles passeiem sem juízo, não se fixando em nada. Tento simplesmente exercitar a compaixão e o encantamento. Mas, às vezes ocorre de uma cena me chamar mais a atenção.

Num desses dias, na Praia do Diabo lotada, vi passar um homem carregando o que parecia um manequim. Mas era um menino, o corpo retorcido como que congelado de súbito entre um gesto e outro. Com alguma dificuldade, o pai o colocou na beira d’água para que as ondas viessem banhá-lo. A vida é um mistério… A expressão de alegria e prazer do menino incapaz de se mover e falar, era tão intensa, tão genuína, que imediatamente renovou em mim o prazer e a alegria de viver. Também me fez bem o carinho sem comiseração que o pai dedicava ao menino. A aceitação tácita da intensidade brutal da vida era a maneira deles de celebrá-la. E talvez seja mesmo a única.