Uns brincos

Você esqueceu uns brincos no chuveiro. Deviam estar lá desde ontem, quando nos entregamos a tão intensa investigação de nossa mútua anatomia que exigiu nudez sem adornos. Agora estão aqui os brincos, fixados com durex no monitor, bem ao alcance dos meus olhos e a salvo do esquecimento e da oxidação.

Ah, o que podem uns brincos! Começam por sugerir orelhas, esses pontos tão sensíveis do corpo, poço de segredos, fonte de arrepios. E então, das orelhas desço pelo pescoço, abismo de perfumes onde anoiteço e siderado desço ainda mais, passando célere dos ombros aos seios, onde róseas estrelas despontam túrgidas…

Meu Deus! Veja que palavras me sugerem esses brincos, indianos no desenho que semelha uma minuciosa roda da fortuna, onde fantasio ver nosso destino: os dois juntos para sempre, tão iguais como um par de brincos.

Que graça eles são, de bronze, acho – ou será latão? Não sei e todo dia me surpreendo com a minha ignorância sobre essas pequenas coisas – para não falar das grandes… Mas um homem pode passar pela vida sem compreender o sentido dela. Isso é possível suportar. A grande ignorância tem sido a fatalidade natural de todos os homens (ou de quase todos) desde sempre. Mas não saber se são de bronze ou latão os brincos que você esqueceu no chuveiro acho quase imperdoável.

Eu queria saber o nome de todos os pássaros e de todas as flores. A biografia dessas pessoas que depois de mortas viraram ruas e praças. Queria saber explicar o funcionamento das máquinas e o metabolismo do corpo. Queria encantar você com palavras exatas e precisas para ver brilhar esses olhos e espantar para longe toda tristeza.

Não sei se existe uma comunidade maior no Orkut, mas “Eu quero um amor pra vida toda” tinha 1.779.583 membros da última vez que olhei e não pára de crescer. O quanto brincos esquecidos no chuveiro terão contribuído para essa descoberta na vida dessa gente? Brincos, um anel, uma peça de roupa íntima, uma marca de batom…

Ah, isso de ir se esquecendo em minha casa aos poucos até que um dia toda você esteja aqui, tão natural como se jamais eu ou esta casa tivéssemos vivido sem você… Isso é muito bom! Sim, vá se esquecendo em minha vida, sem susto e sem alarde. Acolho cada pedaço seu. Mas só não me peça para devolvê-los. Porque às vezes também me agrada ver sua nudez ornada de brincos…