Quando então estaremos salvos

Minha alma às vezes foge e o corpo vaga pelas ruas, mecânico e vazio. Faz o que é preciso, mas lhe falta a graça, aquele toque de improviso próprio de tudo que está vivo. Talvez só quem goste de mim repare. Ou só eles se importem, afinal. Para o resto, tanto faz: a eficiência e a pontualidade lhes são suficientes.

Avessos à intimidade, basta-nos o sorriso formal por baixo de uns olhos apagados. Desatar a tristeza que se adivinha ou se pressente oculta sob a máscara alheia é um risco que não quero correr. “O que eu posso fazer?”, eu repito para mim mesmo nessas horas, sonsamente desconsolado por um problema de que apenas vislumbro a intensidade. Não quero ouvir, não quero saber. Não quero me envolver. Não tenho tempo, nem dinheiro. Não tenho paciência, nem vontade.

E então às vezes me ocorre ser esse outro. Aquele que está só dentro de si, agarrado ao sorriso precário que carrega. Como desaprendi a estender a mão para ajudar, também já não sei estender a mão para pedir ajuda. Estou só em meu corpo deserto. E a ironia é meu último remédio contra a amargura que ameaça me afogar no silêncio.

Se nessas horas calho de dizer ou sequer pensar “Amo você” é como se enunciasse um aviso de perigo. Gostar de mim não me parece um bom negócio, nessas horas. Um perigo, porque daqui, deste deserto, almejo prescindir do amor no exato instante em que duvido que só o amor me baste. Dividido? Não – esfacelado.

Nessas horas, onde estará minha alma? Terá me abandonado? Não. Ele está lá, como sempre, imensa e inefável. Fui eu que a esqueci. Eu? O que em mim difere às vezes tanto de mim a ponto de eu, alma e corpo já não significarem o mesmo? A tristeza é uma doença e toda doença uma cisão, um não que se instala como um vírus que devora os elos que nos mantêm unos. E de onde vem essa doença? Sempre do passado, sempre.

Mais hospitais, escolas, presídios, fuzilamentos, assassinatos, igrejas, sistemas, utopias, revoluções – nada nunca substituirá a capacidade de oferecer ao outro um banho, uma muda de roupa velha, um almoço, uns trocados; o silêncio ouvinte, umas poucas palavras, um abraço. Quando for assim, só então, estaremos salvos.

Terapias, religiões, filosofias, remédios, dinheiro, sucesso, prazeres – nada nunca substituirá o encontro consigo mesmo. Quando for assim, só então, estaremos salvos.

A compaixão é a chave que há de abrir todas as portas – as de casa, as da rua – e deixar correr o invisível vento que une tudo a tudo. Quando for assim, só então, estaremos salvos.