Tropa de mulas

Muita bobagem tem sido escrita sobre o filme “Tropa de elite”. Dois exemplos de tolice empolada disfarçada de crítica são os textos de Carlos Alberto de Mattos e Marcelo Janot.

Ambos concordam que “Tropa de elite” é um filme fascista. Ambos parecem acreditar que a expressão “filme fascista” é auto-explicativa. Ou alguma senha de caráter maçônico capaz de denotar o grau de engajamento político e sofisticação intelectual sem a necessidade de maiores explicações.

Pois é, afinal, o que é um filme fascista? Seria um filme que fizesse a apologia de regimes autoritários ou dos valores que servem de fundamento ao autoritarismo? Nesse caso, o genial “O encouraçado Potemkin” seria um filme fascista? Mais simplesmente, eu diria que uma obra “fascista” seria aquela em que os personagens não existem como entidades singulares, mas como estereótipos pré-determinados. Ou seja, não uma obra de arte, mas uma peça de propaganda. Assim, é possível que haja bons filmes fascistas (Sergei Eisenstein, Leni Riefenstahl) e péssimos filmes “progressistas”.

Conceitualmente, acho complicado dizer que um filme narrado em primeira pessoa seja “fascista”. Porque, de imediato, o filme já se apresenta como uma visão parcial, ambígua e precária da realidade.

Mas, vejam que engraçado, se concordamos que uma “obra fascista” é aquela em os personagens perdem a sua singularidade e são reduzidos a “expressões de classe”, meros estereótipos antecipadamente definidos como bons ou maus, então, neste caso, quem é fascista não é o filme, mas a crítica! E os textos citados são excelentes exemplos.

A crítica de janot é mais primária. Todo tempo ele generaliza suas conclusões e as imagina universais, comuns a todos os espectadores, consciente ou inconscientemente. Ou conscientemente concluímos o mesmo que Janot ou devemos nos deixar esclarecer por ele. A hipótese da discordância não é contemplada.

Tanto janot quanto Mattos lidam com categorias gerais: “os intelectuais”, “os traficantes”, “os estudantes” e a atribuem ao diretor do filme uma intenção generalizante que ele, de fato, não tem. Um dos méritos de Padilha é ligar com personagens singulares. Ninguém ali é apresentado como símbolo ou emblema de classe.

Como Janot e Mattos só enxergam o mundo sob o prisma redutor das categorias e classes, o que os incomoda é que os personagens singulares de Padilha não sejam mostrados com os sinais de positivo e negativo que sua cartilha ideológica recomenda.

O primarismo da abordagem tenta se ocultar sob a linguagem pomposa e de arrogância infantil no melhor estilo fascista dos comissários do gosto.

“Meus amigos sabem que faço severas restrições dramático-ideológicas ao filme de José Padilha. Admiro as façanhas técnicas e artísticas de equipe e elenco, mas não creio que este seja um filme para se analisar apenas desses pontos de vista. Tropa de Elite é mais que um filme – é um evento de discussão social.”, diz Mattos. Ora, quem diz que Tropa de Elite é um “evento de discussão social” (seja lá o que isso quer dizer) é o Mattos, não o autor. Quem vaticina que o filme não pode ser visto apenas como um bom filme é o Mattos. Que autoridade tem Mattos para isso? Nenhuma.

“Ao construir a identificação do espectador com o policial estudioso e bem comportado, o thriller leva à condenação de intelectuais, estudantes e ativistas sociais.” Novamente isso só acontece na cabecinha estratificada de Mattos. Aliás, não há intelectuais no filme. O que há são leitores de cartilha como o próprio Mattos.

“Cria todas as condições para que os sentimentos de direita se estampem, agora com o aval de um cineasta de esquerda (Costa-Gavras).” Aqui Mattos ignora o fato de que se existe um “monopólio da truculência” ele pertence não a direita, mas a esquerda de Lenin, Stalin, Mao, Fidel, Pol Pot. Aliás, a própria tentativa de identificar direita e fascismo como sinônimos é primarismo bocó ou má intenção pura e simples. Finge ignorar que historicamente fascismo e nazismo se apresentavam como ideologias revolucionárias e socialistas em franca oposição ao liberalismo conservador “de direita”. Hitler por exemplo se dizia melhor intérprete de Marx do que os comunistas. É preciso ter lido Marx para entender que não se trata de uma ironia.

Seguindo o manual de sua ética de resultados, onde a opinião está sempre submetida aos seus efeitos táticos e estratégicos, Mattos se pergunta: “Será possível aplaudir o prêmio e não aplaudir o filme? O Urso traz benefícios para o cinema brasileiro e é muito bem-vindo, claro. Mas será esse um raciocínio oportunista?” Sim, Mattos, é oportunista.

Quanto a Janot, tudo que se diz de Mattos, vale para ele também. Como Mattos, janot reconhece as qualidades inegáveis do filme, mas cobra do autor “responsabilidade social”. “Mas a realidade de Tropa de Elite é a da violência do Rio de Janeiro, que invade o nosso cotidiano todos os dias. Por isso, há nele uma responsabilidade social, não dá para tratá-lo meramente como um filme de ficção tecnicamente impecável.”

É fácil concluir que, para Janot, o filme seria “responsável socialmente” se invertesse os sinais e apresentasse os ditos “ativistas sociais” sempre como pessoas sóbrias, intelectualmente preparadas e distantes do tráfico. Ora, sabemos todos que isso não é verdade, que uma parcela ponderável dessas Ongs está de fato envolvida direta ou indiretamente com o tráfico, sim.

De todo modo, não há a menor conexão entre as críticas de que os textos de janot e Mattos são excelentes exemplos e o filme de Padilha. Enquanto as críticas são elas mesmas exemplo do fascismo que pretendem denunciar – ao se submeterem a categorias de manual que reduzem indivíduos a meras entidades sociológicas ou históricas – o filme consegue ser, ao mesmo tempo, realista, ao retratar com precisão jornalística as causas da desordem jurídico-policial brasileira, e dramaticamente denso, ao exibir personagens ambíguos, intensos, mas absolutamente singulares.