O mito da ditadura benigna

Demétrio Magnoli para o caderno especial de O Globo sobre a renúncia de Fidel

“Acho que a grande tragédia da Revolução Cubana foi que ela se tornou dependente da URSS (…). Isso afetou a cultura e a política cubanas e converteu sua imprensa na mais tediosa e previsível em toda a América Latina. Escritores foram perseguidos. Eu nunca defendi nada disso.” O escritor paquistanês Tariq Ali, uma estrela da “nova esquerda”, não está entre os que aplaudem fuzilamentos sumários, censura ou repressão política.

Mas ele reproduz, como tanta gente, o mito nuclear da propaganda castrista: “Penso que a Revolução Cubana realizou proezas incrivelmente importantes (…). É o país mais educado no continente, prova vel men te em todo o terceiro mundo. Numa população de 12 milhões , Cuba produz entre 800 mil e um milhão de gradua dos a cada ano. É capital humano, na forma de médicos que ajudam a África e a América Latina.” Tariq Ali sintetiza os dois termos da equação que seduz até mesmo alguns espíritos avessos ao totalitarismo. A ditadura cubana é deplorável, no plano político, mas socialmente benigna. Não é melhor isso que uma democracia maligna?

Nenhuma pessoa informada escapou da máquina de propaganda que seleciona e difunde as estatísticas preferidas pelo regime cubano. A regra de ouro da manipulação estatística é segmentar eficazmente uma curva. Quase ninguém conhece os indicadores sociais da Cuba pré-revolucionária. Mas eles indicam — surpresa! — que Cuba ostentava excelentes índices de saúde e educação antes que Fidel pudesse salvar seu povo da inanição, da doença e do analfabetismo.

Dois anos antes de Fidel tomar o poder, a taxa de mortalidade infantil cubana era não só a mais baixa da América Latina como a 13amenor do globo. Em 2000, continuava a ser a menor da América Latina, seguida de perto por Chile, Costa Rica e Porto Rico, mas já não estava entre as 25 menores do globo. A informação deve ainda ser contextualizada: Cuba permite aborto legal e exibe uma das maiores relações aborto/gravidez do mundo, em torno de 60%, o que contribui decisivamente para reduzir a mortalidade infantil.

Toda a população cubana, atualmente, está alfabetizada. Mas essa conquista não evidencia poderes milagrosos do castrismo. Quase uma década antes de Castro tomar o poder, Cuba estava entre as nações com maior taxa de alfabetização da América Latina e a velocidade de seu avanço não é espantosa quando comparada a de países como Colômbia, Equador e mesmo Brasil. A Cuba de 1957 tinha 128 médicos e dentistas por cada grupo de 100 mil habitantes, o que a colocava no mesmo patamar da Holanda e à frente da GrãBretanha. Porém eles não desempenhavam missões de política externa na América Latina ou na África, como acontece hoje…

A ditadura de Fulgêncio Batista, derrubada por Castro, também não era benigna. Os invejáveis indicadores sociais do país refletiam uma trajetória iniciada nos tempos coloniais, quando Cuba havia sido um dos mais dinâmicos centros hispanoamericanos, atraindo colonos prósperos e constituindo uma elite numerosa. Os revolucionários cubanos, de José Martí a Fidel, emergiram de um meio intelectual ativo e cosmopolita, o que não é fortuito.

Sob Fidel, a economia cubana foi subordinada aos imperativos estratégicos do regime político. Os investimentos concentraram-se nas Forças Armadas, fundamento do poder interno e das aventuras externas na arena africana, e nos setores vitais para a edificação da imagem internacional do castrismo, notadamente o esporte, a saúde e a educação. Até 1990, a redoma dourada dos maciços subsídios soviéticos disfarçou o empobrecimento da ilha e evitou a dilapidação do legado histórico nas esferas da saúde e da educação.

A Cuba castrista tornou-se certamente mais igualitária, devido à transferência da elite e da classe média para os EUA, onde vivem cerca de 1,5 milhão de cubanoamericanos, o que representa 13% da população da ilha. Mas, sobretudo, o castrismo devastou o capital social acumulado pelo país, arruinando suas infra-estruturas e provocando regressão sem precedentes na produtividade do trabalho.

O regime gerou uma “economia de ruínas”, que se manifesta na paisagem extensivamente degradada das residências, na obsessiva e criativa recuperação de veículos produzidos há meio século, na permanente conversão de profissionais qualificados em motoristas clandestinos de táxi, guias de turismo e prostitutas.

A marca distintiva do sistema castrista foi sintetizada na gíria cubana pela expressão “sociolismo”, fusão de “socialismo” com “amiguismo”. Em Cuba, a economia real é a economia subterrânea, que se articula em redes de ajuda mútua voltadas para o desvio de mercadorias, rumo à troca direta no mercado negro. O “sociolismo” abrange a maior parte da população e ramifica-se na administração pública e nas empresas estatais. Sob o império pervasivo da carência, a corrupção torna-se necessidade, adquire o estatuto de norma e engolfa a nação num universo de regras viradas ao avesso. Eis a herança duradoura que Castro deixa a seus compatriotas.

DEMÉTRIO MAGNOLI, sociólogo e doutor em geografia humana pela USP, é colunista do GLOBO