O caderno secreto de Descartes

Acabei de ler um livro delicioso, “O caderno secreto de Descartes”, de Amir D. Aczel. Sob o pretexto de desvendar o segredo de um caderno de Descartes escrito em linguagem criptografada, que foi copiado por Leibnz antes de desaparecer, Aczel nos oferece uma breve, mas muito bem “montada”, biografia de Descartes, que contrasta com as insípidas biografias acadêmicas.

Das biografias de Descartes só a de Samuel S. de Sacy me foi tão saborosa. O Descartes q emerge das duas nada tem a ver com a imagem que se criou de um filósofo desprovido de graça e coragem. Enfim, Descartes não é Kant! Em nenhum sentido, aliás. Ao contrário, é o melhor remédio contra a “doença do kantismo”.

Mas, como sempre acontece, quando o autor tenta resumir a metafísica cartesiana, incorre em erros graves que comprometem o entendimento do pensamento do filósofo. Chega a ser irônico que um texto tão claro como o cartesiano (e eu acrescentaria: mesmo em seus momentos mais obscuros”) tenha sido vítima de sucessivas interpretações erradas, desde sua publicação. A mais estúpida redundou no hegelianismo. Mas, de modo geral, é impossível encontrar uma interpretação fiel ao texto.

O leitor arguto a essa altura me perguntará: “Você está insinuando ter uma interpretação fiel e, por isso mesmo, original?” Sim, é exatamente. Mas seria preciso escrever para demonstrar o que agora apenas insinuo. “Gênios-para-si-mesmos sonhando” não dá. Como ensina logo a seguir o poeta: “O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.” Portanto, é preciso escrever, encadear em argumentos o que até aqui é apenas intuição. Esse o teste supremo de qualquer a idéia.

Borges dizia que a metafísica é um ramo da literatura fantástica. Era talvez um modo indireto de se apresentar como metafísico, mas certamente a metafísica é o gênero mais nobre da literatura. Por que exige, ao mesmo tempo, precisão argumentativa e a capacidade poética de produzir analogias e metáforas. Foi exatamente o que me surpreendeu e encantou nas “Meditações metafísicas”.

Até ali, como todo mundo, eu pensava Descartes um idiota completo. A leitura já da primeira meditação me capturou por completo. E acendeu uma desconfiança, que só fez crescer desde então, quanto a “inteligência” e a “boa intenção” da Academia. Mas isso será tema de outros posts. Voltemos ao livro de Aczel…

Talvez porque tenha partido não das “Meditações metafísicas”, mas do “Discurso do método”, onde Descartes expõe suas conclusões sem se preocupar em mostrar seu desenvolvimento, Aczel erra feio ao apresentar o resumo da prova da existência de Deus. Diz ele:

“Dúvida implica incerteza, e incerteza implica imperfeição. Os seres humanos e tudo mais em seu ambiente são imperfeitos. Mas a idéia do imperfeito implica a existência de algo que não é imperfeito.”

É exatamente o contrário! Essa a sutileza da prova cartesiana. A despeito de toda a imperfeição, persiste na alma humana uma idéia de perfeição que não pode ser deduzida da imperfeição à volta, porque “do menor não se deduz o maior”, segundo a boa lógica, isto é, do imperfeito não se pode deduzir o perfeito. Logo, como toda idéia corresponde a algo, essa idéia de perfeição só pode ter sido impressa na alma por um ser que a ela corresponda – ou seja: Deus.

O resumo que Aczel faz do Cogito também é falho – mais parece Santo Agostinho do que Descartes! – mas ele ao menos enfatiza o papel da negação no desenvolvimento da prova, o que é um mérito. Mas quanto à Deus, como se viu, não há salvação – sem trocadilho.

Feita a ressalva, volto a recomendar o livro de Aczel. Compare os preços