O Oriente Médio é aqui?

Pedi ao Luis Eduardo Matta, autor dos thrillers políticos Conexão Beirute-Teerã, Ira Implacável e 120 horas, todos ambientados no Oriente Médio, que fizesse uma comparação entre a situação lá e aqui – envolvendo Colômbia, Equador e Venezuela – tomando como possível ponto comum a tensão entre ilegalidade e legitimidade que pode se resumir na seguinte questão: “um país que abriga terroristas de um país vizinho pode apelar para o princípio da inviolabilidade territorial quando o vizinho ataca bases terroristas em seu território?” A seguir, a resposta do Luis:

“O Hamas é uma organização extremista que não quer acordo algum com Israel. A militância armada palestina, após o acordo de 1993, perdeu o sentido, pois Israel tem-se mostrado, desde então, extremamente aberto a negociações. O que vem atrapalhando a criação de um estado palestino e atiçando os ânimos naquele pedaço do Oriente Médio é justamente essa militância extremista. Os palestinos estão divididos. Se o Hamas, sem qualquer objetivo justificável, lança morteirtos contra a opoulação civil de Israel, o governo de Israel tem de revidar. Isso é uma guerra aberta, embora não oficializada.

Aqui na América do Sul, ainda não chegamos a esse nível de beligerância; é justamente essa declaração de guerra que a diplomacia da região está tentando evitar. Há evidências de que os governos da região alinhados a Hugo Chavez mantêm estreitos laços com as Farc, a ponto de permitir que membros do grupo transitem entre as fronteiras. Particularmente, acredito muito nisso. Inclusive porque se houvesse uma cooperação de fato do Equador com a guerra colombiana contra o narcoterrorismo, Raul Reyes não estaria refugiado em solo equatoriano e Quito teria se empenhado em saber o que se passava em seu território.

De todo modo, apesar de eu abominar as Farc, acho que o governo colombiano cometeu dois atos graves ao: 1) matar o guerrilheiro, em vez de detê-lo e levá-lo aos tribunais. 2) transpor a fronteira equatoriana para realizar a operação. Se aceitarmos isso, estaremos agredindo o direito internacional e abrindo um precedente perigoso nas relações internacionais. Não se pode agredir a soberania de um outro país dessa forma. A Colombia pode alegar legítima defesa e acusar o Equador de abrigar terroristas, mas ainda assim terá ferido o direito internacional. O Equador tem todo o direito de reclamar.

Por outro lado, é igualmente verdade que os governos da Venezuela e do Equador, ao apoiarem e abrigarem as Farc em nome de uma revolução tresloucada com um falso verniz de esquerda, também, de certo modo, se envolveram no conflito e agrediram a soberania colombiana. Pois se um país não quer tomar parte de uma guerra num país vizinho, deve, em primeiro lugar, fechar e vigiar permanentemente as suas fronteiras. E sabemos que não foi o que aconteceu, já que Raul Reyes estava calmamente refugiado no Equador, sem ter, em nenhum momento, sido importunado pela polícia daquele país.”