Dia Internacional da Goiabada

Enfeito a casa de flores, faço um almoço diferente e decreto feriado íntimo. Será o dia antecipado da mulher, da minha mulher. Acordei cedo, adiantei tudo que era preciso, fui ao mercado e depois passei o resto da manhã na cozinha, juntando gostos e aromas para seduzir você.

A alface é americana, o macarrão veio da China; as mangas são da Índia, assim como muitos temperos; os tomates são incas, estas azeitonas vieram do Chile; já a goiabada e o queijo são de Minas mesmo. Só não sei de onde vem esse amor que sinto por você. Será que ele existe sem origem? Virá de outras vidas? Ou terá crescido de sementes invisíveis até se tornar essa coisa intensa e vistosa, às vezes tão palpável como se o espírito se tornasse carne e vice-versa? Não sei, mas as conjecturas me divertem mais do que qualquer explicação definitiva. Se houver uma verdade, só uma, que explique todo esse mistério, não quero saber. Só me servem palavras que venham adensá-lo ainda mais, dar-lhe mais cor e volume, mais graça.

Se não for assim, que me deixem encantar você com minhas versões disparatadas, com sabor de improviso como esse molho que fiz, originalíssimo apenas na fantasiosa receita que lhe atribuo, cheia de ingredientes secretos e afrodisíacos.

– Ficou bom o molho…

– É egípicio, respondo com a cara mais séria do mundo e que por isso nada tem de séria. Egípicio porque não me ocorreu palavra mais deliciosa para um molho. “Egípicio?” – e você sorri. Sim, persigo tanto o teu gozo quanto o teu riso, e para isso recorro a todos os artifícios. Sim, bem-aventurados os homens que, sem negligenciar o gozo de suas mulheres, não descuidam do seu riso. Deles será o paraíso na Terra, pois serão como Adão e Eva antes da sobremesa.

– Pra você, quem é o Romeu e quem é a Julieta, a goiabada ou o queijo?

– Ora, é claro que a Julieta é a goiabada.

– Hummm… Só porque goiabada é feminino?

– Não, bobinho. É porque a goiabada é doce…

– Você tem razão… Mas se é assim, acompanhe meu raciocínio…

– Diga…

– Se a Julieta é a goiabada, logo a goiabada é mulher, certo?

– Certo…

– Então podemos dizer que o Dia Internacional da Mulher é também o Dia Internacional da Goiabada, certo?

Você ri. De novo você ri e eu todo me ilumino desse riso, me acendo por dentro, e rivalizo com os girassóis do vaso.

8 Comentários

  1. Puxa, ao ler algo assim tão encantado a semente da inspiração é lançada. Nasce uma vontade de recriar o que existe, transformar, evoluir o que há… Este é o máximo que posso expressar em palavras da leitura do seu texto e da imagem tão bonita e simples que se faz da realidade que descreve.Meus aplausos!Beijos de luz,Aline***

  2. Ai, Antonio, o que dizer de um escritor que traduz tanto meu amor à literatura?É por tanta coisa, tantos detalhes na sua escrita-arte que me emociona. Difíceis até de explicar – tento melhor qualquer dia, prometo!”…não sei de onde vem esse amor que sinto por você. Será que ele existe sem origem? Virá de outras vidas? Ou terá crescido de sementes invisíveis até se tornar essa coisa intensa e vistosa, às vezes tão palpável como se o espírito se tornasse carne e vice-versa?”Como se este trecho já não fosse perfeito em si, e só; sua resposta intuitivamente sábia, pessoal (e por isso mesmo um pouco explicativa também do ‘porquê’ o esccritor nos emociona, pois você é seu texto…), é talvez a mais iluminada e inteira.Sendo bastante repetitiva, obrigada. Por às vezes explicar, outras apenas ecoar respostas e sentidos muitas vezes buscados com dificuldade.um beijo,Marina

  3. Adorei esta história da goiabada, na verdade amei .teus textos são ótimos. Parabéns. meu blog é marthacorreaonline.blogspot.com

  4. Que coisa mais linda, mais cheia de graça. Uma delícia! Essa cozinha do sr. Antonio é maravilhosa alimenta o corpo e faz bem à alma.

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