Há males que vêm pra bem, capítulo 1

Eu ainda não li nada que me explicasse com clareza a crise imobiliária americana. Tudo me parece tão inconsistente e repetitivo que, mesmo sem entender nada de economia, me sinto à vontade para dar meus palpites.

O que entendi até agora foi que os juros muito baixos levaram os bancos e outras instituições de crédito a oferecer financiamento para compra de casa própria a cidadãos que não tinham as garantias usuais. Ou seja: dinheiro para que precisa de dinheiro. Claro, como sempre, o objetivo não era a caridade, mas o lucro. Mas, se a minha descrição está correta, podemos dizer que tratava-se de financiamento de casa própria para a população de baixa renda. Seria então então um “produto social” privado e, pior, oferecido por banqueiros? É, aparentemente é isso mesmo.

Acredito que em lugar nenhum você tenha lido uma abordagem semelhante porque, na cabeça dos jornalistas brasileiros: 1) só quem oferece “produtos sociais” é o Estado; 2) banqueiros não financiam pessoas a juros baixos (o que é verdade no Brasil!); 3) o capitalismo é mau e os EUA são o Grande Satã.

Pelos mesmos motivos, a inciativa do governo Bush de, entre outras medidas, oferecer empréstimos de emergência para dar liquidez às instituições envolvidas é vista exclusivamente como uma operação para “salvar capitalistas” e não também como um benefício para os compradores inadimplentes que, de outra forma, perderiam suas casas imediatamente. Não se trata, portanto, de meramente “socializar o prejuízo”, mas de intervir de modo a minimizar as perdas de todos.

Outra detalhe importante que às vezes parece escapar da compreensão dos jornalistas: o FED, Banco Central americano, não colhe dólares na horta. O dinheiro que ele “injeta” no mercado são, na verdade, empréstimos de curto prazo. E empréstimos com juros – aí não sei se mais altos do que aqueles cobrados pelo mercado. Em uma palavra: o FED não é um BNDES salvador de amigos em apuros.

Essa crise então teria origem no financiamento de cidadãos de baixa renda ou sem garantias formais de crédito. Agora vamos ousar um pouco mais nesse raciocínio e aplicá-lo à macroeconomia: poderíamos dizer que o crescimento da China e da Índia na última década resultou do mesmo princípio? Porque parece indiscutível que, a grosso modo, a ascensão de chineses e indianos ao mercado de consumo global foi financiada pelos americanos.

Meu Deus! Quer dizer então que os sanguessugas da humanidade poderiam ser, sob esse ponto de vista, na verdade, seus benfeitores? Estaria o Grande Satã promovendo a globalização da economia que outra coisa não tem feito senão elevar rapidamente enormes contingentes de miseráveis à condição de consumidores? Assistam aos próximos capítulos da novela “Há males que vêm pra bem”.