Udsh!

O amor é também uma coleção de segredinhos bobos e códigos íntimos, feitos de caras, olhares, palavras e gestos que vão aos poucos demarcando a ilha que de fato todo amor habita, inacessível aos outros e onipresente aos dois. É lá que sempre estamos; é para lá que voltamos a todo instante. Pois, se acaso o cotidiano ameaça nos arrastar para longe, por mais distante que se esteja, a simples lembrança dessas ínfimas feitiçarias é o bastante para nos lançar de volta à ilha. Quem ama nunca está só, é uma verdade óbvia que não perde o gosto de revelação.

Entre tantas outras coisas tolas e secretas, eu e você temos uma palavra; uma palavrinha que não existe, que nunca existiu em nenhuma língua, que, aliás, não é sequer uma palavra e nem foi inventada por nós. É uma simples seqüência de letras aleatórias usada para materializar um signo que em nossa ilha acabou por se tornar expressão da alegria mais insana, inesperada e desmedida: “udsh”.

Não vou dizer que ao ouvir essa palavra você sempre vai lembrar de mim porque simplesmente você jamais vai ouvi-la de outra pessoa: ela pertence a nós dois apenas. Mas toda vez que uma alegria dessas espocar de repente em seu coração, ah!, você vai ouvir “udsh!” ressoar em seu espírito – junto, é claro, com uma imagem muita exata – e a alegria então será dobrada. Se, ao contrário, for um desses dias em que a sombra nos alcança e a tristeza abre diante de nós os seus abismos, a palavrinha há de encontrar seu caminho até você e misturar às lágrimas, um sorriso, amenizando o inevitável.

Mas se alguma vez lhe perguntarem a origem dessa palavra, invente. Diga que vem do ídiche – e se encontrar algum a mão, estilhasse um copo no chão com toda força, como uma forma de ênfase.

Sim, vai que “udsh” vire meu “Rosebud”? Porque, claro, se houver tempo para ensaiar, essa será minha última palavra, que depois quero ver gravada em minha lápide. Se for assim, é possível que num futuro que eu espero bem distante, resolvam pesquisar a origem de “udsh” e venham incomodar você com perguntas. Então faça como eu disse e guarde nosso segredo bobo que ele só tem graça porque é nosso… E os leitores hão de me perdoar por isso.

O mais provável é que nada disso aconteça e tudo se resuma a esta crônica, feita com o único intuito de alegrar você e que logo será tragada pelo esquecimento. Só uma coisa é certa: não importa o tempo que a gente fique junto, “udsh” ficará para sempre inscrito em nossa mitologia íntima. Porque a lembrança é umas formas que a justiça toma e esses nossos dias têm sido mesmo inesquecíveis. Udsh!