Míriam Leitão e o resumo do intervencionismo bocó

Este trecho da coluna de ontem de Míriam Leitão é um resumo não de todas as sandices que li a respeito da crise, mas do espírito que as move. Nada revela melhor e mais suscintamente o que está “por trás” do pensamento da maioria dos comentaristas econômicos, se podemos mesmo chamá-los assim.

Primeiro o trecho corrido: “A bolha aconteceu porque Greenspan abaixou demais os juros, que chegaram a 1% e permaneceram assim por muito tempo. Isso fez com que os bancos fizessem empréstimos de alto risco para pessoas com mau histórico de crédito. Valia a pena emprestar dinheiro para qualquer um. As pessoas não quiseram poupar, preferiram consumir e se endividar. Isso criou a disparada dos preços no setor imobiliário, provocou decisões equivocadas dos bancos, e que agora virou crise.”

Agora comentado linha por linha: “A bolha aconteceu porque Greenspan abaixou demais os juros, que chegaram a 1% e permaneceram assim por muito tempo.” Miriam quer se mostrar filiada aos intervencionistas econômicos que, erradamente a meu ver, têm se mostrado excitados com a ação do Fed e criticam Greenspan por seu “excessivo liberalismo”, por sua crença no caráter auto-regulatório do mercado. É a “esquerda” do capitalismo – ou simplesmente, a esquerda envergonhada do seu passado.

“Isso fez com que os bancos fizessem empréstimos de alto risco para pessoas com mau histórico de crédito.” Como a intenção é criticar o “liberalismo extremado” de Greenspan, o esquerdismo de Míriam não se curva à coerência: os banqueiros, sem a intervenção do estado, “são levados” a ações ruins, não tão pelo maldade do lucro, mas por uma ingenuidade incapaz de avaliar riscos. Mas a grande pérola do trecho é a expressão “pessoas com mau histórico de crédito.” O cacoete esquerdista de Miriam não lhe permite seuqer perceber que “essa gente” são os “despossuídos” americanos e que os empréstimos subprime eram de fato um “programa social privado” que por isso talvez também esteja merecendo do governo americano tanta atenção.

“Valia a pena emprestar dinheiro para qualquer um.” Qualquer um são os pobres, auqeles que em “condições normais” não teriam acesso ao crédito. Vale dizer: os imigrantes e os pobres, que o “esquerdismo intervencionista” de Míriam transforma em vilões de banqueiros incapazes de avaliar riscos. Duas coisas são omitidas aqui: quem milhões d eimigrantes e americanos pobres se alavancaram de fato com esses créditos e que a explosão de consumo financiou o ingresso da China e da Índia no capitalismo.

“As pessoas não quiseram poupar, preferiram consumir e se endividar.” Oque não é necessariamente um mal. Milhões de pessoas conseguiram saltar para um novo drão de bem-estar e conseguiram saldar suas dívidas. Não é esse exatamente o problema.

“Isso criou a disparada dos preços no setor imobiliário,”. Essa me parece a única frase coerente de todo trecho.

“… provocou decisões equivocadas dos bancos,”. Mais uma vez: tadinhos dos banqueiros americanos…

“… e que agora virou crise.”. Pronto! Eis o resumo de todo uma maneira de interpretar os fatos que tenta se passar pela mais fiel. A mim, soa como uma imensa tolice.