De pernas pro ar

O sol finalmente se firma depois do amanhecer incerto, mas uma brisa fria ainda se insinua, vinda do sul e nuvens muito brancas passeiam elegantes pelo céu. O tempo se anuncia volúvel, movido por humores secretos e caprichosos: pode ser que chova, pode ser que faça sol; pode ser que o dia seja muito quente, pode ser que seja ameno. Ou pode ser que tudo isso aconteça, em alternâncias súbitas e inesperadas, nos obrigando a carregar de uma vez o guarda-chuva da cautela ou a observar de soslaio os céus em busca de presságios.

Você está viajando e eu sinto falta do seu corpo, o que às vezes pode ser muito confuso: o desejo não sabe onde acaba o meu corpo e termina o seu e sem cerimônias mistura os dois, enquanto tudo que há são telefonemas nunca suficientemente longos e mensagens de texto sempre mudas, entremeadas de esperas intermináveis. Os dias correm segundo o previsível e a única novidade não é boa: o encanamento está irremediavelmente entupido e foi preciso quebrar as paredes de novo. Tempestades de poeira, lama, desconforto e desordem talvez não cheguem a alcançar você, mas também são poucas as chances de que tudo se resolva com você ainda fora. A descrição do estado das coisas pode parecer um tanto dramática ou quase cômica, mas é assim que eu me sinto sem você e com a casa virada de pernas para o ar.

E aos leitores peço desculpas pela falta de assunto. É que nos últimos dias tudo que fiz foi interrogar as paredes com um grave acento metafísico: “Por onde passam os canos?”, eu perguntava, andando de um lado para outro. Até que desisti de encontrá-los porque achei mais inteligente criar um caminho próprio para os canos novos e abandonar os velhos onde estivessem.

Para minha surpresa, quando começamos a quebrar, os canos velhos seguiam quase exatamente o mesmo percurso que eu idealizara para os novos. “Há a lógica!”, concluí com júbilo também metafísico. E nisso se resumiu minha atividade intelectual na semana. Fora as contas, cálculos, hipóteses arquitetônicas e soluções improvisadas para cada problema que surge.

Não nego que me divirto também. Outro dia, em meio a canos furados jorrando de paredes esburacadas, me senti de repente nas entranhas de um navio lutando para não afundar. Todo mundo conhece a cena, tantas vezes repetida no cinema: gritaria, suor, vapores, água subindo pelas canelas, enquanto no exíguo espaço da casa de máquinas, a tripulação se esforça para estancá-la. Nada disso estava acontecendo por aqui, e os homens a bordo se resumiam a mim e meu imediato, mas um sentimento de bravura e heroísmo me inundou, ainda que não estivesse fazendo muita coisa além de me encharcar.

Porque eu, de fato, não faço nada, me limito a palpitar. O trabalho real fica por conta do Orlando, um paraibano de retidão e fibra incomparáveis, e também de um humor afiado, capaz de respostas e comentários engraçadíssimos. Além, claro, de um vocabulário arcaico e pitoresco, que me encanta. Onde ainda é possível alguém dizer que “não carece bolir na torneira”?

E assim vão passando esses dias sem você. Eu preferia uma solidão mais calma e confortável, mas talvez assim o tempo corra mais depressa.

5 Comentários

  1. Sim, mandarei o e-mail.É… Alguém vendo o que escrevi pode até me chamar de louca, rs! Mas quem disse que não pode existir crônistas melhores que o Rubem?Ninguém não é? Então.

  2. Karine, vc pode imaginar o quanto eu fico contente de ler isso! É mais que um elogio até – é um risco enorme que vc está correndo! rsEu carinhosamente discordo de vc, claro. Mas me sinto lisonjeado e feliz por ser quem melhor lhe traduz – no momento. Ser a tradução de alguém tão ousado também me enche de ousadia! Eassim, fica a tradução a dever mais ao original avida que lhe toma emprestado.Obrigado pelo comentário gentilíssimo e volte sempre. Aliás, me mande um e-mai lpara eu colocar vc na lista do Café.

  3. Olá Antonio!Há um tempo eu venho lendo suas crônicas, e confesso que até me dá um certo receio de comentar sobre elas. Receio por não saber expressar o sentimento que fica após ler uma dessas divindades ou até (como ocorre na maioria das vezes) por não encontrar uma única palavra de exaltação ao nível delas. Certamente escrever algo a quem escreve tão bem é dificílimo…Mas eu vim aqui com um objetivo um tanto ousado. Sim! Depois de toda essa declaração de amor às suas crônicas devo lhe dizer que eu, particularmente, acho suas crônicas melhores que as do Rubem Braga. Juro! Li várias do Rubem mas é que aqui onde encontro mais perfeição e onde encontro a mim mesma.Abraço!Karine Mendes

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