Democracia

Marcelo Madureira, do Casseta e Planeta, disse num debate que “Glauber Rocha é uma merda!”. E aproveitou para desancar o Cinema Novo e adjacências. Eu também acho o Cinema Novo uma merda, mas Glauber para mim é um gênio, na acepção ambígua da palavra, entendida aqui como definidora de alguém que vive integralmente sua obra e a conduz aos limites da experimentação sem nenhum roteiro pré-definido. Alguém que viaja sem mapas e sem bússola porque se dirige sempre rumo ao desconhecido, motivado por um impulso que não compreende nem domina inteiramente.

“Uma câmera na mão, uma idéia na cabeça”, frase que Glauber consagrou, podia ser uma síntese de sua relação com a arte, intuitiva, anárquica, visceral. Mas como program estético do Cinema Novo foi um fracasso. E pior, tornou-se a justicativa estética e teórica para uma série de porcarias que passam por cinema, para não falar da picaretagem pura e simples.

Mas a frase de Marcelo Madureira repercutiu entre os bolivarianos da ABI que, na falta do que fazer, resolveram produzir um “desagravo” a Glauber. O Globo então resolveu”repercutir” a frase entre os suspeitos de sempre e alguns novos suspeitos e depois ouviu de novo o Madureira. O resultado é um barraco ideológico preocupante.

A esquerda é incorrígivel. A velha, stalinista, na impossibilidade do gulag, apela logo para o desagravo, o abaixo-assinado, essas coisas. A “mais gramsciniana”, a esquerda de salão, acostumada a já se nutrir nas tetas do Estado enquanto espera a Revolução, é mais matreira e
pensa esconder seu pendor autoritário ao declarar que “Madureira pode criticar Glauber, sim. Mas com respeito.”. Isso é ridículo. E vindo da boca de Cacá Diegues mais ainda. Eu queria saber o seguinte: e dizer que Cacá Diegues é uma merda, pode? Porque eu acho todos os filmes dele muito, muito ruins.

O que, afinal, é criticar com respeito? Dizer: “Eu acho os filmes de Cacá Diegues excrementiciais”, pode? O problema é a palavra merda? Ou terá sido o uso metonímico do nome “Glauber Rocha”, significando “os filmes de Glauber Rocha”? Ora, nada disso escapa às pessoas em questão, presumo. São farsantes, falsos artistias e falsos intelectuais, mas não são burros.

Como sempre, o que a esquerda pretende é estabelecer normas e indicar comissários que as façam cumprir. “Vigiar e punir” é o lema inconsciente dessa gente.