O amor no trapézio

Não, não diga nada.
Nem adeus, nem perdão.
Por favor, não.
Apenas me sinalize que lá no alto do trapézio
onde sempre estivemos e estamos,
lá, bem alto,
ainda é você quem está do outro lado.

– Sim, sou eu.
Ele pensa ver na distância um sorriso cujo brilho é para ele inconfundível desenhar-se no rosto da mulher do outro lado.

Então de novo eu saltarei,
os braços abertos na certeza dos seus,
indiferente à ausência de rede lá embaixo.
Pois, de que me serviria ela
se seus braços não me alcançassem?

Diz o trapezista de si para si, certo de que ela pode ouvir seus pensamentos.

E então ele se concentra, o olhar firme no vazio que os separa. A tensa calma que lhe toma o corpo vai adensando o ar à sua volta, como se nuvens transparentes se formassem, invisíveis aos olhos, mas cada vez mais sensíveis ao tato de quem com eles partilhasse o sentimento da espera injusta e inexplicável.

O salto planejado nada tinha de original e não lhes exigiria mais sacrifício do que aquele cobrado de gerações e gerações de trapezistas antes deles. A importância do número para eles não estava na precisa geometria dos movimentos que repetiriam, sempre surpreendentes e quase inapreensíveis, mas na sensação intimíssima que teriam ao se darem as mãos em pleno ar e por um momento se sentirem um só. Tudo dependia desse gesto e para ele convergia com a volúpia caprichosa dos rios.

Movendo-se em sincronia, espelho um do outro, fecharam os olhos e se alongaram com a graça própria dos amantes, a ponta do pé experimentando o ar como se tocasse a água de uma piscina.

A hora do salto se anunciava e o coração dos dois rufava como os tambores do circo. Sabiam que seria preciso saltar. Como sempre seria preciso saltar – em honra à tradição milenar dos trapezistas e porque era esse o destino escolhido por todos que ousavam chegar tão alto. Não havia outra razão para terem com tanto esforço chegado até ali. Iriam saltar, era preciso saltar.

Uma outra certeza os animava e dela tiravam a energia extra que daria ao salto uma beleza única e fugaz: se quisessem poderiam simplesmente caminhar no vazio um em direção ao outro e se abraçar lá no alto bem no centro eqüidistante do picadeiro.